Universidades públicas paulistas começaram a estabelecer regras para orientar o uso de inteligência artificial em atividades acadêmicas. As medidas estão sendo adotadas por três das principais instituições do país: a Universidade de São Paulo, a Universidade Estadual de Campinas e a Universidade Estadual Paulista.
Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo divulgada nesta segunda-feira (9), a tendência é exigir transparência no uso dessas ferramentas em pesquisas e trabalhos. A proposta é que alunos e pesquisadores informem quais plataformas utilizaram, incluindo versões, modelos e até os comandos empregados para gerar conteúdos.
As instituições também estão estruturando setores específicos dedicados ao tema. Esses núcleos serão responsáveis por definir diretrizes, promover debates e pesquisas sobre inteligência artificial e oferecer formação para estudantes, professores e outros membros da comunidade acadêmica.
No caso da Unesp, já foram publicados em 2025 uma resolução geral e uma portaria voltada à pós-graduação, enquanto um guia específico para a graduação está em fase final de elaboração.
Entre os usos permitidos para estudantes estão atividades como tradução de textos, parafraseamento de trechos, revisão ortográfica e produção de resumos. Por outro lado, é proibido entregar trabalhos gerados por IA como se fossem produção original ou utilizar a tecnologia em avaliações sem autorização prévia.
As normas também se aplicam aos docentes. Professores podem recorrer à inteligência artificial para elaborar planos de aula ou criar recursos didáticos, mas não devem produzir materiais completos sem identificação ou utilizar a tecnologia para corrigir avaliações dos alunos.
De acordo com Denis Salvadeo, coordenador do Laboratório do Futuro da Unesp, ainda não existem ferramentas confiáveis capazes de detectar o uso de IA em textos acadêmicos. Por isso, ele destaca a importância de estratégias alternativas de avaliação, como projetos mais aprofundados e discussões orais, para evitar acusações equivocadas.
A criação desses protocolos ocorre em um cenário no qual muitas instituições brasileiras ainda não possuem diretrizes claras sobre o tema.
Um estudo publicado em agosto de 2025 pela Cátedra Oscar Sala, em parceria com a revista científica The Conversation, analisou mais de 150 universidades e identificou apenas sete documentos normativos sobre o uso de inteligência artificial no ensino superior.
Dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação indicam que cerca de 85% dos universitários brasileiros já utilizaram inteligência artificial em seus estudos. Para o professor Glauco Arbix, a tecnologia já se tornou parte essencial da produção científica e do mercado de trabalho, o que exige adaptação das universidades.
Pesquisadores também apontam que, na ausência de regulamentação institucional, muitos professores acabam criando regras próprias para suas disciplinas, o que gera diferentes critérios dentro de uma mesma universidade.
Nesse contexto, especialistas defendem que a melhor abordagem é orientar os alunos sobre o uso ético da tecnologia. A avaliação deve considerar se a ferramenta realmente ajuda a cumprir a tarefa e se seu uso preserva o objetivo pedagógico.
Embora certas aplicações possam comprometer o aprendizado, como a produção automática de resumos, outras — como revisão gramatical em segunda língua — podem ser aceitáveis dependendo do contexto.
Para os autores dos estudos, o aprendizado genuíno depende do envolvimento direto do estudante, e delegar etapas essenciais do processo formativo à inteligência artificial pode prejudicar sua própria formação acadêmica.
*Compartilhe esta reportagem do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.












