A China e a Rússia “aumentaram o tom” na XIV Cúpula do BRICS, visando fortalecer o grupo como uma alternativa econômica, política e financeira em um mundo multipolar, redesenhado a partir da deflagração da guerra na Ucrânia.
Em recente entrevista à agência de notícias russa Sputnik, o professor de relações internacionais do Ibmec de Belo Horizonte, Christopher Mendonça corrobora a percepção de que “há um claro endurecimento do discurso revisionista” em termos de intenções do núcleo duro entre cinco os países (Brasil, Rússia, Índia e África do Sul), o que seria uma tentativa de intensificar os laços econômicos entre esses integrantes.
A reportagem também ouviu Ana Elisa Garcia, diretora do think thank BRICS Policy Center — vinculado ao Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (IRI/PUC-Rio).
Um dos defensores do fortalecimento do BRICS foi o vice-ministro do Comércio chinês, Wang Shouwen, ao afirmar que o bloco tem “enorme potencial de expansão”.
Segundo ele, o comércio combinado entre os países representa apenas 6% das transações internacionais, apesar de as principais economias emergentes contribuírem com cerca de um quinto” do volume global.
Em 2021, as exportações intra-BRICS já indicaram esse potencial, com um aumento de 32,6%, em um total de US$ 451 bilhões (R$ 2,7 trilhões), conforme anunciou o governo federal brasileiro. No mesmo período, as exportações do grupo para o mundo cresceram 23,4%, atingindo US$ 4,3 trilhões (R$ 22,6 trilhões).

O fato mais recente é o pedido da Argentina para ingresso no bloco, assim como interesse demonstrado pelo Irã. Seria o segundo país latino-americano a fazer parte do BRICS e o ingresso de uma potencial regional no Oriente Médio, além de manter uma das maiores reservas de gás e petróleo do mundo.
A multipolaridade no campo financeiro também deu o tom durante a cúpula. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, informou que o bloco estuda a criação de uma moeda de reserva internacional, em um esforço para desenvolver uma alternativa para acordos internacionais dominados pelo dólar americano.
Seria mais um passo para a quebra da hegemonia do dólar no mercado internacional. O Brics tenta avançar sobre os escombros de uma ordem econômica que foi dominada pelos EUA após a queda do Muro de Berlim em 1989.
“As principais conclusões que podemos tirar a partir da reunião é que a preocupação com os rumos da ordem internacional está cada vez mais declarada. Os Estados Unidos estão em uma situação complexa do ponto de vista político e econômico, e a liderança internacional de Joe Biden tem se mostrado cada vez mais debilitada. Nesse sentido, os arranjos políticos alternativos ganham maior espaço”, destacou, Christopher Mendonça, que também é professor de relações internacionais.
“Brasil aproveita mal espaço no BRICS”
Para Ana Elisa Garcia, a cúpula “foi um momento muito importante e único de revitalização do BRICS em um sentido geopolítico”.
“É um espaço que a Rússia tem para se manter na ordem internacional de maneira multilateral e não isolada e onde a China pôde trazer suas pautas com muito mais força”, disse.
Com relação ao Brasil, as avaliações dos especialistas não foram tão animadoras.
De acordo com Mendonça, nos últimos meses, o Brasil passou a olhar com mais atenção para as relações entre os países do BRICS. Ele afirma que, embora a China sempre tenha sido um parceiro comercial essencial para o Brasil, no governo do presidente Jair Bolsonaro, “houve um atraso da diplomacia comercial brasileira em acompanhar o alinhamento entre os países”.
“Já há indícios de melhorias nas relações econômicas, mas há ainda muito o que melhorar. A fala dos representantes chineses na cúpula já demonstra a intenção de ampliar enormemente os investimentos entre os países que compõem o bloco, incluindo a parceria com outras potências médias da América Latina e de outras regiões do mundo”, ressaltou o especialista.
“Efeito Trump na Polícia externa”
Mendonça avalia que a política externa de Bolsonaro teve duas fases. A primeira ocorreu até o fim do mandato do ex-presidente americano, Donald Trump, quando houve “um arrefecimento das relações entre os países do BRICS, acentuada pela crise de saúde pública” em meio à pandemia de COVID-19.
“Em 2020 e 2021 houve inclusive alguns momentos de descompasso entre China e Índia por questões territoriais na região da Caxemira e entre o Brasil e a China sobre questões relacionadas ao enfrentamento dos impactos da pandemia”, lembrou o professor de relações internacionais.
Em seguida, com o distanciamento do Brasil com relação aos EUA, após a eleição de Joe Biden, Bolsonaro redirecionou os esforços da política externa brasileira ao BRICS, na avaliação do especialista.
“Entre os eventos que evidenciam essa aproximação ressalta-se a visita realizada pelo chefe de Estado brasileiro a Vladmir Putin em Moscou no período anterior ao conflito com a Ucrânia”, recordou.
Encontro de Bolsonaro com Putin
A viagem do presidente brasileiro à Rússia ocorreu entre 15 a 17 de fevereiro deste ano. A operação militar especial da Rússia na Ucrânia foi anunciada por Putin na semana seguinte, em 24 de fevereiro.
Há pouco menos de um mês, em 30 de maio, Bolsonaro afirmou que a visita da comitiva a Moscou garantiu a continuidade do abastecimento de fertilizantes russos ao Brasil. Segundo ele, o setor agrícola brasileiro “temia não conseguir fertilizantes suficientes” devido ao movimento já crescente de sanções antirrussas àquela altura.
Ana Garcia, diretora do BRICS Policy Center, defende que o Brasil procure estabelecer outras cadeias de comércio para além do agronegócio. Segundo ela, o país tem potencial para explorar áreas como tecnologia, pesquisa e desenvolvimento de produtos farmacêuticos, mas, “infelizmente, se colocou na posição mais baixa da cadeia de valor”.
“O Brasil não tem aproveitado o espaço no BRICS para ascender na cadeia de valor e promover parcerias de maneira mais estratégica”, disse Garcia.
A especialista explica que o Brasil tem uma relação de dependência, “não mútua”, com a China. O país precisa que o gigante asiático continue importando produtos do agronegócio, ao passo que Pequim vem diversificando parcerias no segmento, com o aceno, inclusive, à vizinha Argentina, interessada em ingressar no BRICS após convite chinês.
G7 tenta seduzir Índia e África do Sul
Garcia afirma que a 14ª Reunião de Cúpula do BRICS ocorreu em “momento crucial de tensão internacional crescente e de ascensão chinesa”.
Para além da crise ucraniana, ela lembra que o G7 (composto por Estados Unidos, Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão e Reino Unido) tem tentado se aproximar de Índia e África do Sul para afastar as nações de China e Rússia.
Já Mendonça indica que o protecionismo dos EUA e da Europa em setores econômicos estratégicos contribui para que os membros do BRICS intensifiquem suas relações, utilizando “mecanismos multilaterais para ampliar seus mercados”.
Segundo o especialista, os países do BRICS, como potências médias, têm características comerciais semelhantes, o que “facilita a sintonia”.
“A crise econômica internacional, somada aos desdobramentos da crise no leste europeu, tende a colocar ainda mais perto os países que compõem o BRICS, como forma de questionar a liderança dos EUA nesta década do século XXI”, afirmou.











