A política do Rio de Janeiro voltou a se mover como um tabuleiro instável, em que cada peça carrega mais peso do que aparenta. A ofensiva repentina do prefeito Eduardo Paes (PSB) contra André Ceciliano (PT) e contra o deputado estadual Rodrigo Bacellar (União Brasil) não é fruto de impulso retórico nem de cálculo eleitoral de curto prazo. Trata-se de uma reação defensiva — e reveladora — diante de um rearranjo silencioso em curso no centro do poder fluminense.
Paes percebeu que sua confortável posição de pré-candidato ao governo do Estado, sustentada por ambiguidades ideológicas e acenos simultâneos à esquerda lulista e à direita bolsonarista, começou a ruir no momento em que Ceciliano passou a ser cogitado como alternativa real numa eventual sucessão indireta. Caso Cláudio Castro deixe o cargo para disputar o Senado, o cenário muda radicalmente.
O governador aposta na indicação de seu secretário Nicolle Macione, mas Ceciliano, com trânsito sólido na Alerj e histórico como presidente do Legislativo, reúne condições políticas para produzir uma reviravolta. Mais do que isso: Ceciliano governador significaria, na prática, a consolidação de um palanque de Lula no Rio de Janeiro — um movimento que retiraria o PT da órbita de Eduardo Paes e encerraria qualquer ilusão de “palanque duplo” em 2026.
É nesse ponto que a neutralidade calculada de Paes se desfaz. O prefeito vinha flertando abertamente com setores da direita bolsonarista, acumulando gestos públicos a lideranças como o pastor Silas Malafaia e o deputado Eduardo Pazuello, enquanto sonhava com uma composição nacional que lhe permitisse dialogar com Lula e, ao mesmo tempo, com Tarcísio de Freitas, caso o governador paulista avance para a disputa presidencial. A entrada de Ceciliano nesse tabuleiro desmonta essa engenharia.
O impacto não se limita ao prefeito do Rio. Washington Quaquá (PT), prefeito de Maricá, também se vê encurralado. Ao indicar quadros petistas para a administração de Paes, apostou na manutenção do PT como aliado informal do prefeito na sucessão estadual. Com Ceciliano no horizonte, essa promessa se torna inexequível: o PT no governo estadual dificilmente abriria mão de protagonismo eleitoral em um dos principais colégios eleitorais do país.
É nesse cenário que Rodrigo Bacellar ressurge como variável decisiva. Afastado da presidência da Alerj por medidas cautelares impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, no âmbito da Operação Unha e Carne, Bacellar tornou-se alvo de um curioso consenso tácito: setores do governo Cláudio Castro e do PL parecem pouco interessados em seu retorno ao comando do Legislativo. Há indícios de que sua ausência atende a interesses que extrapolam o discurso público de combate à corrupção.
Uma eventual revogação das cautelares — ou mesmo sua flexibilização — teria efeitos políticos imediatos. Bacellar de volta ao centro do jogo poderia reconfigurar alianças, inclusive abrindo canais de diálogo com Ceciliano. Essa recomposição alteraria o equilíbrio interno da Alerj e teria impacto direto no processo sucessório, enfraquecendo tanto a estratégia de Paes quanto a do grupo palaciano.
Do ponto de vista jurídico, o cenário é menos linear do que o debate político sugere. As medidas cautelares impostas pelo STF não exigem prova definitiva, mas dependem da manutenção de um risco atual à investigação. À medida que o tempo passa, provas são colhidas e não surgem novos episódios de obstrução, o argumento do periculum libertatis se fragiliza. É justamente aí que reside a principal aposta da defesa de Bacellar.
Isso não significa que Alexandre de Moraes esteja prestes a rever sua decisão. O ministro tende a agir com cautela máxima em investigações sensíveis, sobretudo quando envolvem crime organizado e agentes públicos de relevo. Ainda assim, a jurisprudência do Supremo é clara ao afirmar que medidas cautelares não podem se eternizar sem fundamentos renovados. A possibilidade mais realista não é uma absolvição política de Bacellar, mas a substituição das restrições por medidas menos gravosas.
Enquanto isso, Eduardo Paes joga para evitar o pior cenário possível: um PT emancipado, um Ceciliano fortalecido e um Bacellar politicamente reabilitado. Sua aproximação com Cláudio Castro e setores do PL é mais profunda do que os discursos públicos deixam transparecer. O que se desenha é uma espécie de ménage ideológico assimétrico, no qual o PT corre o risco de ser apenas um figurante — sem ter consentido com esse papel.
O Rio de Janeiro caminha para 2026 sem candidaturas consolidadas, mas com linhas de fratura cada vez mais visíveis. No centro desse enredo, o destino jurídico de Rodrigo Bacellar pode funcionar como gatilho de uma rearrumação mais ampla. Em política, sobretudo na fluminense, decisões judiciais raramente produzem apenas efeitos jurídicos. Quase sempre, reescrevem o roteiro inteiro.
*Sobre o “Piranhão”: É o apelido da sede da Prefeitura do Rio de Janeiro, no Centro. O termo “Piranha” ou “Piranhão” surgiu para descrever a máquina pública, especialmente em épocas de escândalos de corrupção, sugerindo que os políticos “devoram” ou “se alimentam” dos recursos públicos, como o peixe carnívoro. Lembrando que a sede do governo municipal está localizada nas imediações da antiga Vila Mimosa.
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