A queda espetacular do Banco Master, culminando na prisão de seu presidente, Daniel Vorcaro, e na liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, expôs mais do que uma fraude financeira de proporções bilionárias.
A crise, que já havia sido antecipada pelo Diário da Guanabara (DG) em abril de 2024, revela uma complexa teia de conexões políticas e financeiras que apontam para uma rota de financiamento ao Bolsonarismo e ao Centrão, com o dinheiro público de aposentados fluminenses no centro do furacão.
A tentativa frustrada de compra do Master pelo BRB (Banco Regional de Brasília), sob o governo de Ibaneis Rocha (MDB), é agora vista pelas autoridades como uma manobra desesperada para mascarar uma investigação que já estava em curso. O que se desenrola é um escândalo que liga o sistema financeiro, fundos de pensão estaduais e a alta cúpula política do país.
A Operação Compliance Zero e a fraude bilionária
A Polícia Federal (PF) deflagrou a Operação Compliance Zero, que resultou na prisão de Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master, e de outros seis executivos e sócios da instituição.
Vorcaro foi detido no Aeroporto Internacional de São Paulo/Guarulhos, na noite anterior à liquidação, enquanto tentava deixar o país em um voo particular com destino a Dubai.
A investigação aponta para um esquema de gestão fraudulenta e organização criminosa baseado na emissão e negociação de títulos de crédito falsos.
A PF suspeita que o Banco Master, em conluio com o BRB, tenha fabricado carteiras de crédito insubsistentes — papéis que não representavam valores reais ou não tinham lastro comprovado — e os vendido a outras instituições financeiras.
“O modus operandi consistia na criação de títulos de crédito sem lastro real — papéis que, em tese, representavam dívidas que deveriam ser pagas pelo governo após decisões judiciais e direitos creditórios, mas que, na prática, não tinham existência comprovada ou não eram respaldados por documentação adequada”, destaca reportagem do DG.
O montante da fraude é estarrecedor: a Justiça determinou o bloqueio de R$ 12,2 bilhões em contas bancárias de pessoas físicas e jurídicas ligadas ao grupo. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que o escândalo tem uma dimensão bilionária contra o sistema financeiro nacional.
Além das prisões, a operação resultou no afastamento do presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, que havia sido indicado pelo deputado Ciro Nogueira (PP-PI) e contava com as bênçãos do governador Ibaneis Rocha (MDB).
A tentativa do BRB de adquirir o Master, vetada pelo Banco Central, é agora vista como uma tentativa de abafar a investigação.

O Rioprevidência e a rota do financiamento
A conexão mais explosiva, no entanto, reside no uso do Banco Master como um veículo para o que o Diário da Guanabara aponta como uma das rotas de financiamento ao Bolsonarismo.
O Rioprevidência, fundo de pensão dos servidores do estado do Rio de Janeiro, governado por Cláudio Castro (PL), realizou um aporte agora estimado em mais de R$ 1 bilhão em Letras Financeiras (LFs) do Banco Master.
Este valor, que representa mais de 8% do patrimônio do fundo, foi investido em títulos que, segundo a reportagem original, podem ser classificados como “títulos podres” e que não contam com a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
O investimento ocorreu apesar dos alertas e determinações do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ), que identificou irregularidades e tentou impedir novas transações com o Master.
A proximidade política entre o governador Cláudio Castro (PL) e o clã Bolsonaro, especialmente com o senador Flávio Bolsonaro, levanta sérias questões sobre a motivação e suposta pressão por trás desse aporte bilionário.
A reportagem original ainda aponta que o Master operava um esquema de “pirâmide financeira” com Certificados de Depósito (CDS), captando de novos clientes para pagar investimentos de outros mais antigos.
O dinheiro do Rioprevidência, captado da Caixa Econômica Federal, teria sido injetado nesse esquema, comprometendo o caixa do fundo e o futuro de 235 mil servidores inativos.
A ligação com o Bolsonarismo se aprofunda com a figura de Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e pastor da Igreja Evangélica Bola de Neve.
Zettel é apontado como um dos maiores doadores da campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro, sugerindo que o Master funcionou como um canal para o aporte de recursos na esfera política ligada ao PL.
O escândalo do Banco Master, portanto, transcende a esfera econômica. Ele se estabelece como um caso emblemático de como o dinheiro público, a ganância do mercado financeiro e as conexões políticas de alto nível podem convergir para criar um rombo bilionário, com o risco de deixar milhares de aposentados à mercê de “títulos podres” e de uma investigação que promete abalar as estruturas do poder em Brasília e no Rio de Janeiro.
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