A Operação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ), que resultou em mandados de prisão para dois delegados da Polícia Civil na sexta-feira (9), foi batizada como Águia na Cabeça, segundo detalha informações divulgadas pela promotoria.
A finalidade foi desmantelar uma célula do que é descrito como “organização criminosa de bicheiros dentro da Polícia Civil” e que estaria operando, ao menos, desde 2016. A operação resultou na prisão do delegado Maurício Demétrio, do ex-chefe da Polícia Civil, Allan Turnowski e de Marcelo José Araujo de Oliveira, que seria ligado ao jogo do bicho e atuaria como elo entre contraventores e policiais.
No âmbito da mesma Operação, a 1ª Vara Criminal Especializada em Crime Organizado expediu 22 mandados de busca e apreensão.
A promotoria afirma ter reunido um acervo de provas no curso das investigações, que demonstram o envolvimento dos delegados Maurício Demétrio e Allan Turnowski com a exploração do jogo do bicho.
O envolvimento se daria, inclusive, na disputa travada por duas facções, uma ligada ao bicheiro Fernando Iggnácio, executado em novembro de 2020, e a Rogério de Andrade. As duas facções disputam o espólio do falecido Castor de Andrade, um dos ícones da contravenção no Rio de Janeiro.
Na disputa violenta entre os dois grupos pelo domínio de territórios e estruturas de exploração de jogos de azar, além de crimes conexos, o MP narra que Mauricio Demétrio se associou a Fernando Iggnácio para atuar como agenciador do bando dentro da Polícia Civil.
“Para beneficiar seu grupo e prejudicar o rival, praticou inúmeros atos criminosos, como o reiterado vazamento de informações sobre investigações sigilosas, intermediação de pagamento de propina a outros servidores públicos, cooptação de colegas de Polícia Civil para atuar em favor do grupo, chegando a arquitetar o homicídio de Rogério de Andrade”, destaca um trecho da narrativa da promotoria.
Já o delegado Allan Turnowski, que disputa um mandato de deputado Federal pelo PL, estaria atuando como agente duplo na disputa entre os bicheiros.
“De modo dissimulado, aproveita seus vínculos com integrantes do grupo de Rogerio de Andrade, tais como Ronnie Lessa e Jorge Luiz Fernandes, o Jorginho (que seriam milicianos), para repassar informações para seu comparsa Mauricio Demétrio, potencializando a atuação da dupla em benefício do grupo então liderado por Fernando Iggnácio”, diz o MP.
As investigações teriam constatado que os delegados mantinham rotina intensa de contatos e aconselhamento mútuo, na qual tratavam sobre recebimento de propina, vazamento de informações sobre investigações, estratégias para galgar cargos estratégicos na corporação e necessidade de se protegerem mutuamente da atuação de investigadores.
O relatório cita ainda o papel relevante do núcleo na defesa do braço da organização criminosa dentro da Polícia Civil, tendo agido para proteger o sócio no crime e nas empreitadas criminosas, por meio de monitoramento e acesso a procedimento sigiloso de investigação.
Para manter a proteção, uma delegada de polícia chegou a ser removida como represália à instauração de inquérito policial contra os interesses do grupo. “Dentre outros comparsas, os delegados de polícia Mauricio Demétrio e Allan Turnowski contavam com a atuação de Marcelo José Araujo de Oliveira (também alvo da operação) como elo entre o braço policial da organização criminosa e Fernando Iggnácio”, diz a promotoria.
O braço policial da contravenção ainda estaria cooptando outros integrantes da Polícia Civil para participarem de esquemas ilegais, como foi o caso do delegado de polícia Antonio Ricardo. As investigações apontam que ele foi corrompido por Maurício Demétrio para atender interesses de Fernando Iggnácio, prejudicando um desafeto de ocasião do bicheiro, o conhecido traficante Celsinho da Vila Vintém.
Em outra oportunidade, o delegado é apontado como intermediário para o repasse de propina paga por Adriano Magalhães da Nóbrega, o Capitão Adriano, a policiais civis então lotados na DRACO-IE (Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais).
“Também negociou o pagamento de propina advinda da GRES Beija-flor de Nilópolis para o policial civil Alexandre de Souza Baesso, então lotado na DRCPIM (Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Propriedade Imaterial),”, diz o relatório.
Os delegados deverão responder por integrar organização criminosa, crime de corrupção ativa e passiva e violação de sigilo funcional. As penas somadas superam 30 anos de reclusão e a condenação leva à perda do cargo público.
Outro lado
Os advogados de Allan Turnowski entraram com um pedido de habeas corpus reivindicando a soltura do cliente, mas neste sábado (10), durante audiência de custódia, a justiça do Rio decidiu manter a prisão preventiva do ex-secretário de Polícia Civil.
A audiência foi realizada na Cadeia Pública José Frederico Marques, em Benfica, na Zona Norte do Rio.
O advogado de Allan Turnowski, Fernando Drummond, diz que o resultado da audiência de custódia não surpreende. Segundo ele, a decisão teve como base “diálogos de terceiros, fora do contexto”.
“A audiência foi como o esperado porque não examina nenhuma questão do processo, apenas diz se a prisão é legal ou não. E ela foi mantida. Mas a defesa declara que a decisão é baseada em diálogos de terceiros, fora do contexto e de 2016, quando Allan sequer estava na polícia. A gente espera que a justiça reverta essa decisão em breve. Nós vamos apresentar novo recurso de habeas corpus. A defesa vai continuar na sua luta para conseguir a liberdade do Dr. Allan”, afirma o advogado.
*Da Agência Fonte Exclusiva. Leia e compartilhe as reportagens do Diário da Guanabara.












