No emaranhado de negócios milionários que circulam pela Prefeitura de Presidente Kennedy, município do sul capixaba que ostenta uma das maiores rendas per capita do país graças aos royalties do petróleo, uma empresa se destaca pelo volume financeiro incompatível com seu histórico e pela peculiaridade de seu suposto proprietário: a Shark Negócios e Empreendimentos Ltda, que tinha como dono oficial um simples lavador de carros.
Documentos obtidos com exclusividade pela reportagem da série “República dos Royalties” revelam que a empresa, anteriormente chamada Lopes do Brasil Ltda, movimentou mais de R$ 13 milhões em apenas cinco meses, entre julho e novembro de 2023, em um intenso fluxo de transferências via PIX que levanta suspeitas do que pode ser um sofisticado esquema de lavagem de dinheiro e distribuição de propinas.
O “laranja” e a empresa de fachada
A história da Shark Negócios começa com uma mudança estratégica de nome. A antiga Lopes do Brasil Ltda foi vendida para um grupo que, segundo apontam investigações da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), elegeu um “laranja” para figurar como proprietário oficial: Welter José da Costa, um lavador de carros residente em Marataízes, município vizinho a Presidente Kennedy.
A escolha do nome “Shark” (tubarão, em inglês) parece ter sido uma espécie de batismo para a empresa que mergulharia no que pode ser descrito como um “paraíso terrestre sob o ponto de vista financeiro” – os cofres públicos de Presidente Kennedy, município que recebe volumosos recursos de royalties de petróleo e gás.
Os milhões que entram e saem em tempo recorde
Extratos bancários da conta da Shark Negócios no banco digital Cora, analisados pela reportagem, mostram um padrão financeiro incompatível com empresas regulares.
Em julho de 2023, a conta foi aberta com saldo zero e, em apenas um mês, movimentou R$ 2,4 milhões. O padrão se repetiu nos meses seguintes, com pico de R$ 3,4 milhões em setembro.
O mais intrigante é que, apesar do intenso fluxo financeiro, a conta sempre terminava o mês com saldo próximo a zero – R$ 109,92 em julho, R$ 21,26 em agosto, R$ 21,32 em setembro, R$ 0,59 em outubro e R$ 6,51 em novembro.
Esse padrão é típico de contas utilizadas apenas para fazer o dinheiro “passar”, sem acumulação, dificultando o rastreamento e eventuais bloqueios judiciais.
“É um padrão clássico de lavagem de dinheiro e distribuição de valores ilícitos”, explicou um investigador que atua em casos de crimes financeiros, ouvido pela reportagem e que pediu para não ser identificado.
“A empresa recebe recursos públicos e imediatamente os distribui para pessoas físicas e jurídicas em um esquema de pulverização.”
A rota do dinheiro: os beneficiários dos PIX milionários
Os extratos revelam um grupo recorrente de beneficiários das transferências da Shark. A principal destinatária é a empresa Queen Empreendimentos (CNPJ 28.123.374/0001-13), que recebeu múltiplas transferências fracionadas de aproximadamente R$ 100 mil cada, especialmente em setembro e outubro de 2023.
Entre as pessoas físicas que receberam valores expressivos estão Janio Ferreira (R$ 121 mil), Julianne dos Santos (R$ 100 mil) Luciano Carpaneda (R$ 50mil) e José Ricardo Lopes (19,6 mil).
Também aparece nos extratos o nome de Diou Feletti, que consta como alvo de busca e apreensão no relatório da Draco.
O fracionamento de valores em transferências próximas a R$ 100 mil é outro indício de tentativa de burlar sistemas de controle financeiro, já que transferências acima desse valor costumam gerar alertas automáticos nos sistemas de prevenção à lavagem de dinheiro dos bancos.

Leo Goela: o operador com conexões políticas?
No centro da investigação da Draco está Leonardo Rios Batista, conhecido como “Leo Goela”, apontado como um dos principais articuladores do esquema.
Segundo fontes próximas à investigação, Leo Goela mantém fortes ligações com um deputado estadual capixaba, cujo nome é mantido em sigilo pelos investigadores.
Uma fonte ouvida pela reportagem destaca que a relação entre Leo Goela e o parlamentar seria a chave para entender como a Shark Negócios conseguiu abocanhar contratos milionários na prefeitura de Presidente Kennedy.
O deputado, segundo esta mesma fonte, utilizaria sua influência política para garantir o direcionamento de licitações e contratos, enquanto Leo Goela operacionalizaria o esquema de distribuição de propinas via PIX.
“O deputado atua como uma espécie de ‘padrinho político’ do esquema, garantindo que as empresas ligadas ao grupo tenham acesso privilegiado aos contratos públicos”, afirma uma fonte que acompanha as investigações.
O papel do Procurador-Geral
Outro nome que deve emergir com o avanço das investigações é o de Rodrigo Lisbôa, Procurador-Geral de Presidente Kennedy. Sua posição estratégica no município seria crucial para o funcionamento do esquema, já que é responsável por emitir pareceres sobre a legalidade de contratos e licitações.
Lisbôa pode ter atuado para viabilizar juridicamente os contratos com a Shark Negócios, com pareceres favoráveis em processos de interesse do grupo.
“Um procurador municipal tem o poder de barrar ou aprovar contratos com base em análises jurídicas. Se esse poder é usado para favorecer determinados grupos, estamos diante de um grave comprometimento da administração pública”, explica o advogado Thiago Silva, especialista em direito administrativo consultado pela reportagem.
A operação da Draco
O relatório da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) que a reportagem teve acesso revela que a investigação já resultou em mandados de busca e apreensão contra Leonardo Rios Batista (Leo Goela), Diou Feletti, Elizeu Siqueira da Silva, Welter José da Costa (o “laranja”), Carlos Henrique Goulart Lana e Gabriel Nazareth Lana.
As buscas tiveram como objetivo apreender celulares, computadores e documentos que pudessem comprovar o esquema de desvio de recursos públicos e pagamento de propinas.
O Ministério Público, na ocasião, manifestou-se favoravelmente à quebra de sigilo telemático e afastamento de dados armazenados dos investigados.
O impacto na “República dos Royalties”
Presidente Kennedy é um dos municípios brasileiros com maior renda per capita graças aos royalties de petróleo e gás. Em 2023, o município de apenas 11 mil habitantes recebeu mais de R$ 300 milhões em royalties, o que deveria se traduzir em desenvolvimento social e econômico para a população. O orçamento total do município de apenas 12 mil habitantes foi de R$ 419 milhões.
No entanto, esquemas como o operado pela Shark Negócios comprometem a aplicação adequada desses recursos, direcionando-os para enriquecimento ilícito de grupos específicos em vez de beneficiar a população local.
“É um caso emblemático do que chamamos de ‘maldição dos recursos naturais’. Municípios que recebem grandes volumes de royalties muitas vezes acabam se tornando alvos preferenciais de esquemas de corrupção”, analisa o professor universitário João Vicente Alvarenga.
A série “República dos Royalties” continuará investigando os desdobramentos do caso e outros esquemas de corrupção que drenam os recursos do petróleo e gás no Espírito Santo.
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