*Coautoria: Gilmei Francisco Fleck (Unioeste/Fundação Araucária-PR) | Jorge Antonio Berndt (Unioeste/Capes-CNPQ)
Por um ensino de literatura a partir das margens (2026) é uma coletânea de artigos organizada por importantes pesquisadores da área dos estudos literários que propõem uma forma outra de abordar a literatura na educação brasileira. O livro constitui-se como um marco na discussão sobre diversidade cultural, racial e social nos diferentes níveis da educação, posto que coloca em circulação sujeitos e temáticas que durante séculos foram escamoteados, tendo suas vivências invisibilizadas, suas experiências negadas e seus saberes menosprezados pelas remanescências do colonialismo em nossa sociedade.
A coletânea organiza-se em torno de alguns eixos fundamentais, que se relacionam precisamente pelas noções de “marginalidade” e ensino. Cada um de tais tópicos estruturantes abarca uma dimensão específica da diversidade literária. No primeiro eixo, dedicado às margens afro, os autores apresentam uma abordagem profunda sobre a literatura negra emancipatória e a importância da oralidade afro-brasileira, abrindo possibilidades para a descolonização das mentes e das identidades nos jovens leitores em formação nas instituições educativas brasileiras.
O segundo eixo, voltado às margens indígenas, traz contribuições significativas de autoras, que discutem a literatura indígena contemporânea e a importância da oralidade ancestral na formação docente, contribuindo, assim, para a desterritorialização e reterritorialização dos espaços imaginários ocupados pela retórica colonialista da “Modernidade”/civilidade.
No terceiro eixo, sobre as margens inclusivas, os pesquisadores aprofundam temas como literatura surda e práticas educativas em ambientes não formais. Eles oferecem, assim, novas perspectivas para a inclusão na sala de aula, contando tanto com a reconceptualização de recursos básicos (como o livro) quanto com a reinterpretação do espaço, garantindo, assim efetivamente, um projeto de inclusão que vai além das diretrizes, norma e leis.
O quarto eixo, dedicado às margens de gênero e sexualidade, apresenta importantes contribuições a respeito de temas queer e a representação de identidades diversas na literatura infantil, rompendo as barreiras colonialistas impositivas da “unidade e pureza” que implementaram a colonização em nossas terras.
Há outros eixos de relevância marcante no processo de ensino da literatura que são contemplados na organização da obra. Cada um deles demonstra um papel crucial na renovação da abordagem tradicional à literatura em nossas instituições educacionais. Cada capítulo da obra abre uma possibilidade de renovação, sendo base sólida para a formação continuada dos docentes que apostam no poder humanizador da literatura para transformar as estruturas ainda colonialistas de nossa sociedade.
A relevância dessas reflexões encontra-se na oferta de recursos valiosos que capacitam os leitores a interrogar o cânone literário tradicional e a articular uma prática pedagógica mais inclusiva, equitativa e decolonial. Por extensão, ao contemplar a riqueza cultural e social do Brasil contemporâneo, cada capítulo estrutura sendeiros inéditos para se pensar e repensar o ensino e a compreensão da escrita, em uma chave inter/transdisciplinar e intersemiótica.
Trata-se, assim, de uma leitura indispensável para professores de literatura, formadores, investigadores e estudantes de Letras que buscam compreender o ensino a partir da pluralidade cultural, étnica, social e geográfica do Brasil contemporâneo. Ademais, o projeto escritural revela-se de considerável relevância para pesquisadores e leitores dedicados aos estudos literários em um âmbito geral.
Finalmente, não podemos deixar de indicar que a coletânea configura-se como um importante passo na direção de uma formação leitora literária mais democrática, rumo à decolonialidade. Isso acontece porque ela não somente aporta com ferramentas teóricas e propostas para uma abordagem mais ampla, inclusiva e, potencialmente, decolonial da literatura nas salas de aula, mas, também, porque possibilita a ressignificação do que é ensinar na América Latina.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Estado do Rio de Janeiro.














