Quem prepara café todos os dias pode ter percebido pequenas mudanças no aroma, no corpo ou na intensidade da bebida. Parte dessa diferença pode estar relacionada a uma transformação que vem ocorrendo na indústria brasileira: o conilon ganhou mais espaço na composição de cafés vendidos como tradicionais e extrafortes, enquanto a participação do arábica diminuiu em algumas misturas.
Grande parte dos cafés comercializados no país é produzida a partir de um blend, nome dado à combinação de diferentes espécies ou variedades de grãos. Entre as mais utilizadas estão o arábica e o conilon, que apresentam características distintas e podem ser combinados em diferentes proporções para chegar ao perfil desejado pelo fabricante.
O arábica costuma apresentar maior complexidade aromática e sabores mais suaves. Já o conilon, pertencente à espécie Coffea canephora, tende a apresentar mais corpo, maior teor de cafeína e características que permitem à indústria utilizá-lo para dar intensidade à bebida.
Nos últimos anos, entretanto, a escolha deixou de envolver apenas o perfil sensorial. O preço da matéria-prima e as condições de produção também passaram a pesar mais na formulação dos produtos. O arábica enfrentou forte valorização e é mais sensível a eventos como altas temperaturas, períodos de seca, geadas e chuvas irregulares. O conilon, por sua vez, apresenta maior tolerância ao calor e tem se tornado uma alternativa importante para a composição dos blends.
O movimento ocorre depois de um período de forte encarecimento do café. Dados da Associação Brasileira da Indústria de Café mostram que, considerando cinco anos até 2025, a matéria-prima havia acumulado alta de 212% no arábica e de 201% no conilon. No varejo, os cafés das categorias tradicional e extraforte ficaram 5,8% mais caros ao longo de 2025.
Isso não significa, porém, que todo café tradicional tenha passado a seguir uma fórmula única. Cada fabricante define seu próprio blend, e a proporção entre arábica e conilon pode variar de uma marca para outra e até ser modificada ao longo do tempo.
Também não houve uma nova regra obrigando as empresas a substituir arábica por conilon. A mudança observada está relacionada principalmente às estratégias das torrefadoras diante dos custos, da disponibilidade dos grãos e da necessidade de manter características semelhantes entre diferentes lotes.
O Ministério da Agricultura determina que a embalagem informe quando o produto é composto integralmente por uma espécie ou indique qual delas predomina. Assim, o consumidor pode encontrar expressões como “100% arábica”, “predominantemente arábica” ou “predominantemente conilon”. A regulamentação também deixa claro que uma alteração no blend corresponde a uma mudança do produto e que as informações da embalagem precisam continuar compatíveis com seu conteúdo.
A presença maior de conilon também não permite concluir, sozinha, que o café se tornou pior. O resultado na xícara depende de vários fatores, como qualidade dos grãos utilizados, nível de torra, armazenamento, moagem, proporção da mistura e método de preparo. Uma torra mais intensa, comum em alguns cafés extrafortes, também pode reduzir a percepção das diferenças entre as espécies.
O Brasil continua produzindo grandes volumes dos dois tipos. A estimativa mais recente da Companhia Nacional de Abastecimento aponta uma safra total de 67,6 milhões de sacas em 2026, a maior da série histórica da estatal. Desse total, cerca de 48,2 milhões são de arábica e 19,4 milhões de conilon.
Apesar do crescimento expressivo da safra total neste ano, as mudanças feitas pela indústria refletem uma transformação construída ao longo de vários ciclos de produção. Eventos climáticos, oscilações internacionais dos preços e custos da matéria-prima levaram empresas a buscar maior flexibilidade na composição das marcas.
Para o consumidor que percebeu diferença no café habitual, uma forma simples de entender melhor o que está comprando é observar o rótulo. Além da espécie predominante, vale comparar o ponto de torra e outras informações disponíveis entre diferentes marcas.
No fim, o café tradicional encontrado nas prateleiras continua sendo café torrado e moído, mas o equilíbrio entre os grãos usados para produzi-lo pode não ser exatamente o mesmo de alguns anos atrás. O conilon ganhou protagonismo e passou a desempenhar um papel cada vez mais importante na xícara dos brasileiros.
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