Um novo exame de sangue para auxiliar na investigação da doença de Alzheimer passou a ser oferecido nesta quinta-feira (15) pelo Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O teste mede a proteína p-tau217, um biomarcador associado às alterações cerebrais características da doença, e pode tornar parte do processo diagnóstico mais simples e menos invasiva.
Disponível inicialmente na rede privada, o exame custa cerca de R$ 3 mil e é destinado a pessoas que já apresentam alterações cognitivas e estão sob investigação médica por suspeita de Alzheimer. Não se trata, portanto, de um teste de rotina indicado para qualquer pessoa que queira descobrir antecipadamente se terá a doença.
A p-tau217 é uma forma modificada da proteína tau. Quando seus níveis estão alterados no sangue, isso pode indicar maior probabilidade da presença de placas de beta-amiloide no cérebro, uma das principais características biológicas da doença de Alzheimer. Pesquisas vêm demonstrando que esse biomarcador tem bom desempenho na identificação da chamada patologia amiloide.
Na prática, o paciente realiza uma coleta de sangue semelhante à de outros exames laboratoriais. A amostra é então analisada para medir a concentração do biomarcador. A vantagem é justamente obter informações que antes podiam exigir procedimentos mais complexos, como a coleta de líquido cefalorraquidiano por punção lombar ou exames especializados de imagem, como o PET amiloide.
Isso não significa, porém, que o exame substitua a avaliação médica ou determine sozinho que uma pessoa tem Alzheimer. O diagnóstico envolve a combinação dos sintomas apresentados, histórico clínico, avaliação cognitiva, impacto das alterações no cotidiano e, quando necessário, outros exames. O próprio Ministério da Saúde destaca que biomarcadores sanguíneos precisam ser interpretados com cautela e dentro do contexto clínico de cada paciente.
O resultado pode ser classificado como positivo, negativo ou inconclusivo. Quando é positivo, indica que as alterações biológicas associadas ao Alzheimer são mais prováveis. Um resultado negativo reduz essa probabilidade. Já nos casos inconclusivos, que podem representar aproximadamente 15% a 20% das análises realizadas nesse modelo de teste, o médico pode avaliar a necessidade de investigação complementar ou de repetir o exame posteriormente.
Um resultado positivo também não significa necessariamente que todos os sintomas apresentados pela pessoa sejam provocados pelo Alzheimer. Outras doenças e condições podem afetar memória, atenção e outras funções cognitivas, razão pela qual a avaliação clínica continua indispensável.
A indicação é especialmente importante porque episódios isolados de esquecimento não são suficientes para justificar a realização do teste. Alterações de memória podem ocorrer por diferentes motivos, incluindo envelhecimento normal, privação de sono, uso de determinados medicamentos, depressão e outras condições de saúde. A investigação de demência começa pela avaliação médica.
A chegada de testes sanguíneos mais precisos ocorre em um momento de mudança no diagnóstico e no tratamento da doença. Em dezembro de 2025, a Anvisa registrou no Brasil o lecanemabe, medicamento destinado a determinados pacientes com comprometimento cognitivo leve ou demência leve causada pelo Alzheimer e com patologia amiloide confirmada. A identificação adequada dessa alteração biológica passou, portanto, a ter também implicações para a definição de possíveis tratamentos em pacientes selecionados.
Apesar da novidade oferecida em Porto Alegre, exames sanguíneos para biomarcadores do Alzheimer não surgiram agora no país. Outros testes, incluindo análises de p-tau217 e combinações de biomarcadores, já vinham sendo disponibilizados na rede privada em 2026, com preços e metodologias diferentes. A nova oferta amplia as possibilidades disponíveis para investigação da doença.
Por enquanto, o exame anunciado pelo Hospital Moinhos de Vento é pago e custa aproximadamente R$ 3 mil. Não há incorporação desse teste ao Sistema Único de Saúde. Uma eventual oferta pelo SUS depende de avaliação específica da tecnologia, incluindo evidências de benefício, custo-efetividade e impacto financeiro.
A expectativa é que os biomarcadores sanguíneos tornem a investigação do Alzheimer progressivamente mais acessível, principalmente por dependerem apenas de uma coleta de sangue. Ainda assim, especialistas reforçam que o avanço não transforma o exame em um teste de check-up e tampouco elimina a necessidade de acompanhamento médico.
Para quem percebe perda de memória persistente, dificuldade para realizar atividades que antes eram habituais, desorientação ou outras mudanças cognitivas progressivas, o primeiro passo continua sendo procurar avaliação profissional. O exame de sangue pode ser uma ferramenta importante nessa investigação, mas é uma parte do diagnóstico — não a resposta isolada.
*Compartilhe este conteúdo do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Estado do Rio.












