O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) passou a ser alvo de pedidos de investigação depois de compartilhar nas redes sociais um documento falso atribuído à Polícia Federal. O material simulava um relatório da corporação e apresentava uma suposta conclusão favorável ao parlamentar sobre conversas mantidas com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A Polícia Federal confirmou que não produziu nem a imagem nem o conteúdo apresentado como documento oficial. A falsificação começou a circular nas redes sociais na quinta-feira (3), em meio à repercussão de mensagens e áudios envolvendo Nikolas e Vorcaro.
O falso relatório afirmava que a análise das conversas não teria encontrado indícios suficientes para justificar a abertura de uma investigação específica contra Nikolas. Essa conclusão, porém, não consta de um documento produzido pela Polícia Federal.
O material apresentava diferentes sinais de irregularidade. Entre eles estavam erros de português, problemas na sequência da numeração dos tópicos, datas incompatíveis, diferenças no símbolo utilizado para representar a Polícia Federal e elementos pouco usuais em documentos oficiais. Checagens realizadas por Aos Fatos e Agência Lupa também encontraram sinais de que a imagem foi produzida ou alterada com ferramentas de inteligência artificial.
Nikolas compartilhou publicação e depois apagou
O documento chegou aos stories do perfil de Nikolas no Instagram. Segundo a assessoria do deputado, ele havia republicado conteúdo divulgado anteriormente por outro perfil ou portal e retirou a postagem depois de descobrir que o material era falso.
A equipe do parlamentar sustenta que Nikolas desconhecia a falsidade do documento quando fez o compartilhamento. Até agora, não há comprovação pública de que o deputado tenha produzido, encomendado ou participado da criação da montagem.
Esse ponto é relevante porque uma eventual responsabilização criminal depende da apuração sobre a origem do documento, quem participou de sua produção e se as pessoas que o divulgaram tinham conhecimento de que se tratava de uma falsificação.
Deputados pedem investigação
Após a repercussão do caso, o deputado Rogério Correia (PT-MG) pediu à Polícia Federal a abertura de um inquérito para investigar tanto a produção quanto a circulação do falso documento.
No pedido, Correia solicita que a PF identifique os responsáveis pela montagem, preserve registros digitais, obtenha dados relacionados às publicações feitas em plataformas como Instagram e X e realize perícia no arquivo.
O requerimento também pede que Nikolas seja ouvido e que uma cópia do procedimento seja encaminhada à Procuradoria-Geral da República para análise da conduta do parlamentar. O próprio pedido reconhece, entretanto, que o simples compartilhamento não demonstra que Nikolas tenha criado ou encomendado o documento nem que soubesse de sua falsidade.
Outro pedido foi apresentado pelo deputado Chico Alencar (PSOL-RJ). Ele encaminhou uma notícia-crime à Procuradoria-Geral da República solicitando a apuração das circunstâncias em que o documento foi produzido e divulgado.
A representação pede que a PGR instaure procedimento investigatório ou avalie o encaminhamento do caso ao Supremo Tribunal Federal para eventual abertura de inquérito policial. Entre as medidas solicitadas estão a preservação da postagem original, a obtenção de informações junto às plataformas e a oitiva do deputado.
Possíveis crimes serão avaliados
Na notícia-crime apresentada à PGR são mencionados, em tese, os crimes de falsificação de documento público, falsidade ideológica e uso de documento falso, previstos nos artigos 297, 299 e 304 do Código Penal.
No caso da falsificação de documento público, a pena prevista pode chegar a seis anos de reclusão, além de multa. A aplicação de qualquer tipo penal, no entanto, dependerá do resultado das investigações e da comprovação da participação e do conhecimento de cada envolvido.
No pedido encaminhado à PF, Rogério Correia também solicita que seja investigado eventual uso indevido de símbolos da administração pública. Como o episódio aconteceu durante o período eleitoral, o parlamentar pediu ainda o envio das informações à Procuradoria-Geral Eleitoral para análise de uma possível infração relacionada à divulgação de informação sabidamente falsa com potencial de influenciar eleitores.
Caso ganhou força após divulgação de conversas com Vorcaro
A montagem começou a circular poucas horas depois da publicação de reportagens sobre mensagens e áudios encontrados no material relacionado às investigações envolvendo Daniel Vorcaro.
Entre os diálogos divulgados está uma conversa em que Nikolas pede ajuda ao então banqueiro para tratar de uma questão envolvendo um ativo minerário de interesse de um ex-assessor. Em outro trecho divulgado pela imprensa, Vorcaro afirma ter custeado voos utilizados pelo parlamentar.
Nikolas reconheceu a existência dos contatos, mas negou irregularidades e rejeitou a interpretação de que mantinha uma relação próxima ou financeiramente irregular com Vorcaro.
Agora, caberá às autoridades decidir se os pedidos apresentados justificam a abertura de procedimentos formais e, caso isso ocorra, esclarecer quem criou o falso relatório, como o documento começou a circular e se houve participação consciente de pessoas que ajudaram a disseminá-lo.
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