A ivermectina é um medicamento conhecido há décadas e tem papel importante no tratamento de algumas infecções causadas por parasitas. Isso, no entanto, não significa que possa ser usada livremente ou em qualquer quantidade. Em doses elevadas, o medicamento pode causar intoxicação grave e atingir inclusive o sistema nervoso.
A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos, alerta que uma overdose de ivermectina pode provocar náusea, vômitos, diarreia, queda da pressão arterial, tontura, alterações no equilíbrio, reações alérgicas e convulsões. Nos quadros mais graves, há risco de coma e até morte.
O risco aumenta quando o medicamento é ingerido em doses superiores às recomendadas, usado repetidamente sem indicação médica ou combinado com outros remédios capazes de gerar interações. Mesmo dentro de usos autorizados, a ivermectina pode interagir com determinadas substâncias, o que reforça a necessidade de atenção à prescrição.
A ivermectina não é, portanto, um medicamento “sem risco”. Como ocorre com outros fármacos, a segurança depende da indicação correta, da dose adequada e das características de cada paciente.
Nos Estados Unidos, por exemplo, comprimidos de ivermectina são aprovados para tratamento de doenças parasitárias como estrongiloidíase intestinal e oncocercose. Algumas apresentações tópicas também são utilizadas contra piolhos e em determinadas condições dermatológicas. Produtos veterinários, por outro lado, possuem concentrações e formulações próprias e não devem ser utilizados em seres humanos.
A discussão sobre o medicamento ganhou grande visibilidade durante a pandemia de Covid-19, quando a ivermectina passou a ser divulgada como possível tratamento ou forma de prevenção da doença. Estudos clínicos mais robustos realizados posteriormente não demonstraram benefício suficiente para justificar seu uso rotineiro com essa finalidade.
A diretriz mais recente da Organização Mundial da Saúde sobre tratamentos para Covid-19 mantém recomendações específicas para os medicamentos utilizados contra a doença. A posição anterior da entidade sobre ivermectina era restringir seu uso nesse contexto a estudos clínicos diante da falta de evidências confiáveis de benefício.
Outras diretrizes também chegaram a conclusões semelhantes. Uma atualização recente do American College of Physicians orienta que ivermectina não seja utilizada para tratar pacientes adultos com Covid-19 leve ou moderada. Ensaios clínicos de maior porte não demonstraram redução relevante de hospitalizações ou mortes associada ao medicamento.
Isso não muda o fato de que a ivermectina continua sendo um medicamento válido para as doenças para as quais possui indicação. O problema está em transformar um antiparasitário em tratamento para situações sem benefício comprovado ou considerar que doses maiores poderiam aumentar sua eficácia.
Também não existe uma relação simples entre “quanto mais, melhor”. Aumentar uma dose por conta própria pode elevar a concentração do medicamento no organismo sem proporcionar benefício adicional e, ao mesmo tempo, aumentar o risco de efeitos tóxicos.
Sinais como confusão, dificuldade para caminhar ou manter o equilíbrio, vômitos persistentes, queda importante da pressão, falta de ar ou convulsões após o uso do medicamento exigem avaliação médica. Em casos de suspeita de overdose ou ingestão de quantidade desconhecida, a orientação é procurar atendimento de saúde imediatamente.
A ivermectina tem utilidade médica bem estabelecida como antiparasitário. O que as evidências não sustentam é a ideia de que seja uma droga livre de riscos ou de que o aumento da dose possa ser feito sem consequências. Quando o assunto é medicamento, a margem entre tratamento e toxicidade depende justamente do uso correto.
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