As relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos voltaram a enfrentar um momento de tensão após o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, questionar a forma como Washington conduziu o processo de escolha de seu novo embaixador para Brasília.
Em entrevista ao jornal argentino Clarín, o chanceler afirmou que a suspensão do visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos ocorreu antes de o governo brasileiro concluir a análise do nome indicado por Washington para ocupar a representação diplomática no Brasil.
Segundo Vieira, os Estados Unidos passaram aproximadamente um ano e meio sem um embaixador no país. Após encaminhar uma indicação ao Senado norte-americano, Washington teria consultado o governo brasileiro cerca de um mês depois sobre o nome escolhido.
O ministro considerou inadequada a maneira como a consulta foi realizada. De acordo com Vieira, a Convenção de Viena determina que esse tipo de procedimento seja conduzido de forma confidencial. Ele destacou ainda que o acordo internacional não estabelece um período específico para que o país receptor conceda o agrément, autorização necessária para a nomeação de um representante diplomático.
Vieira também declarou que, no momento em que o visto da embaixadora brasileira foi suspenso, a indicação norte-americana sequer havia sido apresentada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dessa forma, segundo o chanceler, a avaliação do governo brasileiro ainda não havia sido concluída.
Conflitos acumulados entre os governos
Na avaliação de Mauro Vieira, o episódio não deve ser analisado de forma isolada. O ministro relacionou a situação a uma série de divergências registradas entre Brasília e Washington nos últimos períodos.
Entre os pontos mencionados estão declarações de autoridades norte-americanas sobre o sistema eleitoral brasileiro, questões relacionadas a visitas ao território nacional e manifestações envolvendo o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Para o chanceler, a suspensão do visto da representante brasileira pode ter sido utilizada como instrumento de pressão para que o governo brasileiro desse andamento à indicação feita pelos Estados Unidos.
Vieira também afastou a ideia de que as divergências estejam concentradas apenas na atuação do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio. Segundo ele, diferentes integrantes e setores da administração dos Estados Unidos estariam envolvidos nas decisões que provocaram os recentes atritos.
O ministro relatou ainda que já tratou diretamente das divergências com Rubio em algumas oportunidades, incluindo duas conversas durante viagens realizadas à capital norte-americana.
Disputas relacionadas a Jair Bolsonaro
As questões envolvendo Jair Bolsonaro também foram citadas por Mauro Vieira ao comentar a deterioração das relações entre os dois países.
Segundo o chanceler, parte dos conflitos teve origem em iniciativas de autoridades norte-americanas relacionadas aos processos judiciais envolvendo o ex-presidente brasileiro. Na avaliação de Vieira, essas ações representaram uma tentativa de interferência em questões que deveriam ser tratadas exclusivamente pelas instituições brasileiras.
O ministro afirmou que o governo federal não poderia atender a eventuais solicitações para interromper processos judiciais em andamento. Ele ressaltou que a divisão entre os Poderes impede que o Executivo determine o encerramento ou a paralisação de ações que estão sob competência do Judiciário.
A troca de declarações ocorre em meio a uma relação diplomática marcada por divergências sobre diferentes assuntos, incluindo o sistema eleitoral brasileiro, decisões judiciais, questões envolvendo Jair Bolsonaro e procedimentos relacionados à escolha de representantes diplomáticos.
Para Mauro Vieira, a suspensão do visto da embaixadora brasileira acrescentou mais um episódio à sequência de conflitos entre Brasília e Washington e evidenciou as dificuldades enfrentadas pelos dois governos na condução da relação bilateral.
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