Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de São Paulo (USP) avançou mais uma etapa na busca por tecnologias que possam contribuir para o uso de órgãos de animais em transplantes humanos. O primeiro porco clonado no Brasil passou por quase quatro meses de acompanhamento científico e foi eutanasiado no fim de julho, conforme previsto no protocolo elaborado pelos pesquisadores.
O animal nasceu em abril de 2026, no Instituto de Zootecnia de Piracicaba, no interior de São Paulo. Posteriormente, foi encaminhado para instalações vinculadas à USP, onde passou a ser monitorado pela equipe responsável pelo estudo.
Durante o período de observação, os pesquisadores acompanharam o desenvolvimento do porco e avaliaram diferentes indicadores relacionados às suas condições de saúde. Segundo Ernesto Goulart, integrante da pesquisa, o animal apresentou evolução considerada adequada e alcançou os parâmetros estabelecidos para essa etapa.
A eutanásia fazia parte do planejamento inicial do experimento, mas foi antecipada em aproximadamente dois meses devido às dificuldades financeiras enfrentadas pelo projeto. Segundo o pesquisador, a redução do período de acompanhamento não prejudicou os dados considerados necessários para a pesquisa.
Segundo clone não sobreviveu
O projeto também resultou no nascimento de um segundo porco clonado. Nesse caso, porém, o animal morreu aproximadamente 24 horas após o nascimento.
A diferença entre os dois resultados evidencia parte das dificuldades envolvidas nas técnicas de clonagem. Embora o segundo exemplar não tenha sobrevivido, o primeiro conseguiu completar a etapa de acompanhamento definida pela equipe científica.
Após a eutanásia, o animal será submetido a um processo de preservação por taxidermia. A expectativa é que o exemplar seja incorporado ao acervo do Museu de Zoologia da USP, em São Paulo, onde poderá ser utilizado em atividades de pesquisa e educação.
Falta de recursos afeta andamento da pesquisa
O projeto teve início entre o fim de 2019 e o começo de 2020 e reúne pesquisadores de diferentes instituições. O financiamento envolve recursos dos governos federal e estadual.
Nos últimos meses, entretanto, limitações orçamentárias dificultaram a continuidade das atividades. Segundo Ernesto Goulart, gastos relacionados à manutenção da infraestrutura, alimentação dos animais e contratação de profissionais foram afetados pelos problemas na liberação de recursos.
No começo de 2026, aproximadamente 40 pessoas faziam parte da equipe. Parte dos profissionais deixou o projeto posteriormente em razão das dificuldades relacionadas aos repasses financeiros.
O Ministério da Saúde informou que a iniciativa faz parte do Programa Genomas Brasil. Do orçamento de R$ 11,6 milhões aprovado para o projeto, R$ 6,15 milhões já foram disponibilizados por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
De acordo com o ministério, a liberação dos recursos restantes está condicionada ao cumprimento das metas previstas, à análise das prestações de contas das etapas anteriores e à disponibilidade orçamentária.
Próxima etapa envolve animais geneticamente modificados
Depois da etapa de clonagem, os pesquisadores pretendem avançar para o desenvolvimento de porcos geneticamente modificados. O objetivo é utilizar esses animais em pesquisas relacionadas ao xenotransplante, área que investiga a possibilidade de utilizar órgãos de outras espécies em pacientes humanos.
A tecnologia é estudada como uma possível alternativa diante da diferença entre o número de pessoas que necessitam de transplantes e a quantidade de órgãos humanos disponíveis.
Pesquisas sobre o tema vêm sendo realizadas há décadas em diferentes países, incluindo Estados Unidos e China. No Brasil, a equipe da USP pretende avançar para novas etapas quando houver recursos financeiros e estrutura suficientes para a continuidade dos experimentos.
O domínio de técnicas de clonagem e edição ou modificação genética pode ampliar a capacidade brasileira de participar de pesquisas sobre xenotransplantes. Entretanto, a utilização de órgãos animais em seres humanos ainda depende de avanços científicos, avaliações de segurança e etapas de pesquisa antes de uma eventual aplicação clínica.
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