Uma rede interestadual suspeita de transformar medicamentos roubados em um negócio milionário foi alvo de uma ampla ofensiva policial nesta terça-feira (21). A Operação Metástase investiga o desvio e a comercialização ilegal de remédios oncológicos e imunossupressores de alto custo, utilizados no tratamento de pacientes com câncer, transplantados e pessoas com doenças autoimunes.
Coordenada pela Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas da Capital, a ação da Polícia Civil do Rio de Janeiro resultou na prisão de cinco investigados. Ao todo, foram expedidos cinco mandados de prisão preventiva e 97 ordens de busca e apreensão em endereços localizados no Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Pará.
As investigações apontam que o grupo movimentou mais de R$ 33 milhões entre 2025 e 2026. Para tentar esconder a origem criminosa dos recursos e dos medicamentos, os suspeitos teriam utilizado aproximadamente 25 empresas de fachada distribuídas pelos quatro estados alcançados pela operação.
Medicamentos voltavam ao mercado
Segundo a Polícia Civil, o esquema não terminava com o roubo das cargas. Após serem retirados dos veículos transportadores, os produtos eram encaminhados para áreas controladas pelo Terceiro Comando Puro, o TCP, no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio.
A investigação indica que a facção oferecia proteção territorial e apoio armado ao núcleo responsável pelos assaltos. Outros integrantes ficavam encarregados de armazenar, separar e encaminhar os medicamentos para receptadores localizados em diferentes estados.
Para dificultar o rastreamento, a organização utilizava transportadoras, entregadores, pessoas empregadas como “laranjas” e empresas abertas para simular operações comerciais regulares. Funcionários de companhias de transporte também teriam sido aliciados para fornecer informações sobre rotas, horários e cargas de maior valor.
Venda para hospitais
Uma das principais descobertas da investigação foi a reinserção dos medicamentos roubados na cadeia formal de abastecimento da saúde.
De acordo com a polícia, empresas ligadas ao esquema ofereciam os produtos por preços inferiores aos praticados no mercado regular. Dessa forma, os remédios teriam sido revendidos para hospitais privados e também para instituições públicas por meio de processos de contratação e licitação.
A estratégia permitia que medicamentos de origem criminosa fossem apresentados como mercadorias adquiridas legalmente. Os investigadores agora procuram identificar quais instituições receberam os produtos e se os responsáveis pelas compras tinham conhecimento da procedência irregular.
Roubo de cargas era violento
As apurações atribuem ao grupo dezenas de ataques contra transportadores de medicamentos nos últimos meses. Segundo os investigadores, os criminosos utilizavam armas de grosso calibre, veículos de apoio e batedores para abordar os caminhões e garantir a retirada das cargas.
Parte dos produtos era levada para o Complexo da Maré, onde ocorria o transbordo antes da distribuição para outros pontos do país.
Durante o cumprimento dos mandados na comunidade, policiais encontraram barricadas incendiadas e enfrentaram resistência armada. Também foram realizadas diligências na Baixada Fluminense e em municípios paulistas, goianos e paraenses.
Em São Paulo, equipes cumpriram 26 mandados de busca e apreensão e uma ordem de prisão em cidades como São Paulo, Guarulhos, Guarujá, Jundiaí, São Caetano do Sul e Mauá. Medicamentos de alto custo foram recuperados e três armas de fogo foram apreendidas.
Risco para os pacientes
Além do prejuízo financeiro, o esquema representa uma ameaça direta à saúde pública. Medicamentos oncológicos e imunossupressores precisam ser mantidos sob condições rigorosas de temperatura, transporte, higiene e armazenamento.
Quando a cadeia de conservação é interrompida, os produtos podem perder a eficácia, sofrer contaminação ou apresentar alterações capazes de comprometer o tratamento.
O paciente que recebe um medicamento nessas condições pode não perceber qualquer irregularidade na embalagem. No entanto, a exposição ao calor, à umidade ou ao armazenamento inadequado pode afetar a composição e a segurança do produto.
Os roubos também podem provocar desabastecimento em hospitais e atrasar terapias que não devem ser interrompidas, especialmente nos casos de câncer e transplante de órgãos.
Bloqueio de contas e bens
A investigação pediu à Justiça o bloqueio de R$ 30 milhões mantidos em contas bancárias relacionadas aos suspeitos. Também foram solicitados o sequestro de imóveis, veículos de luxo e outros bens que, segundo a polícia, poderiam ter sido adquiridos com recursos provenientes do esquema.
As ordens foram expedidas pela 1ª Vara Especializada em Organização Criminosa do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
Os documentos, aparelhos eletrônicos, registros financeiros e medicamentos recolhidos durante as buscas serão analisados. A apuração pretende identificar outros participantes, rastrear os compradores finais e determinar o volume total de produtos roubados que pode ter retornado ao sistema de saúde.
A Operação Metástase prossegue com o objetivo de interromper toda a estrutura logística e financeira do grupo investigado.
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