Um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de São Paulo reacendeu o debate sobre a relação entre violência, circulação urbana e consumo de substâncias psicoativas no Brasil.
A pesquisa identificou que mais da metade das vítimas de mortes violentas analisadas em quatro capitais brasileiras apresentava algum tipo de substância tóxica no organismo.
O levantamento avaliou mais de 3,5 mil óbitos registrados em Belém, Recife, Vitória e Curitiba entre 2022 e 2024. Segundo informações divulgadas pela Revista Fapesp, 53% dos casos tiveram resultado positivo para pelo menos uma substância, como álcool, cocaína, medicamentos psicoativos ou outras drogas ilícitas.
A análise considerou mortes por causas externas, incluindo homicídios, acidentes de trânsito e suicídios. Apesar do percentual elevado, os pesquisadores destacam que os dados não permitem afirmar que o consumo de álcool ou drogas tenha provocado diretamente os óbitos.
A presença de uma substância no organismo da vítima indica exposição ou consumo anterior, mas não comprova, isoladamente, que ela tenha determinado o comportamento envolvido na ocorrência ou causado a morte. Por isso, os resultados precisam ser avaliados com cautela.
O biomédico toxicologista Henrique Bombana, pesquisador da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, explicou que o estudo analisou apenas amostras das vítimas.
A pesquisa não avaliou agressores, motoristas ou outras pessoas envolvidas nos episódios, o que limita a interpretação sobre a dinâmica real de cada caso.
Nos acidentes de trânsito, por exemplo, parte das vítimas era formada por pedestres. Para compreender melhor esses episódios, seria necessário saber também se os condutores dos veículos haviam consumido álcool ou outras drogas.
Nos homicídios, a análise dos autores da violência também poderia ampliar a compreensão sobre o papel das substâncias nos desfechos fatais.
A pesquisa integra um convênio com a Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas e Gestão de Ativos. As quatro capitais foram escolhidas com base em critérios como taxa de mortalidade por causas externas e localização em rotas de tráfico de drogas.
Entre os óbitos analisados, 90% das vítimas eram homens. Mais da metade tinha 30 anos ou mais. Os homicídios concentraram a maior parte das ocorrências, respondendo por 67% dos casos. Os acidentes de trânsito representaram 15%, enquanto os suicídios corresponderam a 9% do total.
A cocaína foi a substância mais encontrada, presente em 30% das mortes avaliadas. De acordo com os pesquisadores, ela apareceu com maior frequência em casos de homicídio. O álcool foi detectado em 28% das vítimas e teve associação mais expressiva com acidentes de trânsito.
Medicamentos psicoativos, como tranquilizantes, apareceram em 7% dos casos. Já a cannabis foi identificada em 2% das mortes analisadas.
Um ponto destacado pelos cientistas é que os resultados não devem ser interpretados como retrato geral do consumo de drogas no Brasil.
Embora a cannabis seja considerada a droga ilícita mais consumida no país, essa prevalência não apareceu na amostra avaliada. Segundo Henrique Bombana, também não é possível tirar conclusões amplas sobre perfil socioeconômico das vítimas, já que esse tipo de informação não foi coletado.
O estudo também mostrou diferenças regionais entre as capitais analisadas. Em Recife, houve maior presença de álcool nos casos avaliados.
Em Vitória e Belém, os resultados indicaram maior ocorrência de outras drogas ilícitas. Em Curitiba, o álcool apareceu com predominância em relação às demais substâncias.
Para os pesquisadores, essas variações podem ajudar na formulação de políticas públicas mais ajustadas à realidade de cada cidade.
Em locais onde o álcool aparece mais associado a mortes no trânsito, por exemplo, ações de fiscalização, prevenção e educação viária podem ser reforçadas.
Já em regiões com maior presença de drogas ilícitas em mortes violentas, especialistas defendem políticas integradas que envolvam segurança pública, saúde mental, assistência social e estratégias de redução de danos.
O levantamento reforça que a violência letal é um fenômeno complexo, influenciado por diversos fatores. Entre eles estão desigualdade social, circulação de armas, mercado ilegal de drogas, comportamento de risco, vulnerabilidades urbanas e falhas nas políticas de prevenção.
Embora não estabeleça uma relação direta de causa e efeito entre o consumo de substâncias e as mortes, a pesquisa oferece um retrato importante sobre a presença de álcool, drogas e medicamentos em episódios fatais.
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