O samba brasileiro perdeu neste domingo (17) uma de suas figuras mais emblemáticas. Noca da Portela morreu aos 93 anos no Hospital Assim Medical, onde estava internado desde o fim de abril para tratamento de uma infecção pulmonar.
O artista chegou a ser transferido para o Centro de Terapia Intensiva (CTI) após agravamento do quadro clínico e teve a morte confirmada às 17h05, segundo boletim médico divulgado pela unidade.
Reconhecido como um dos grandes nomes da história do samba carioca, Noca deixa um legado marcado pela defesa da cultura popular, pela trajetória vitoriosa no Carnaval e pela forte ligação com a Portela, escola na qual ocupava o posto de baluarte.
Em nota oficial, a agremiação decretou três dias de luto e lamentou profundamente a perda do compositor, destacando sua presença constante na quadra e sua importância para a comunidade portelense.
O velório será realizado na terça-feira (19), na quadra da Portela, em Madureira, com cerimônia aberta ao público entre 8h e 14h. Até o momento, não foram divulgadas informações sobre o sepultamento.
A morte do sambista provocou manifestações de pesar de diferentes personalidades e instituições ligadas ao samba e à cultura brasileira. O presidente da Portela, Júnior Escafura, homenageou Noca nas redes sociais, ressaltando a importância histórica do artista para a escola e para o samba.
O primeiro mestre-sala da agremiação, Marquinhos de Oswaldo Cruz, também prestou tributo ao compositor, afirmando que o samba perde um de seus grandes representantes.
A Mocidade Independente de Padre Miguel divulgou mensagem de solidariedade à família e à Portela, classificando Noca como um dos maiores poetas do Carnaval brasileiro.
O Fluminense, time pelo qual o sambista declarava paixão, também publicou homenagem destacando a ligação afetiva do compositor com o clube e lembrando versos conhecidos nas arquibancadas do Maracanã.
A Prefeitura do Rio de Janeiro ressaltou, em nota, a contribuição de Noca para a preservação do samba e da cultura popular carioca, afirmando que sua trajetória representa parte fundamental da história do Carnaval do Rio de Janeiro.
Nascido em Leopoldina, Minas Gerais, em 1932, Osvaldo Alves Pereira adotou o nome artístico Noca da Portela e construiu uma carreira de décadas no samba. Ainda jovem, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde começou a compor e se aproximou das escolas de samba. Antes de ingressar definitivamente na música, trabalhou como feirante e estudou violão e teoria musical.
Sua trajetória no Carnaval começou pela Paraíso do Tuiuti, escola que ajudou a fundar nos anos 1950. Em 1966, foi convidado por Paulinho da Viola para integrar a ala de compositores da Portela, após passar por avaliação do sambista Candeia.
Na azul e branco de Madureira, Noca acumulou vitórias históricas em disputas de samba-enredo e assinou composições que marcaram gerações, como “Gosto que me enrosco”, vencedor do Estandarte de Ouro em 1995, “Os olhos da noite” e “ImagináRIO, 450 Janeiros de uma Cidade Surreal”, um dos sambas mais celebrados do Carnaval de 2015.
Além da carreira carnavalesca, suas músicas foram interpretadas por grandes artistas da música brasileira, entre eles Beth Carvalho, Clara Nunes, Alcione e Zeca Pagodinho. A canção “Virada”, eternizada por Beth Carvalho, tornou-se símbolo do período de redemocratização do país.
Militante do Partido Comunista Brasileiro, Noca também ficou conhecido pelo conteúdo político e social de suas composições. Em 2006, chegou a assumir a Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro.
Mesmo nos últimos anos, permaneceu ativo na música e no Carnaval. Em 2025, participou do projeto “Coleção Flores Em Vida”, gravado pela Universal Music, além de seguir envolvido em disputas de samba-enredo para o Carnaval de 2026.
Em reconhecimento à sua contribuição para a cultura brasileira, recebeu em 2022 o título de doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Sua morte encerra uma trajetória considerada fundamental para a preservação das tradições das escolas de samba e da memória cultural do Rio de Janeiro.
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