Um levantamento baseado em documentos da Comissão Nacional da Verdade (CNV) aponta que a maior parte dos empresários citados por colaboração com a ditadura militar brasileira possui ligação genealógica com famílias historicamente associadas ao período escravocrata no país.
O relatório final da CNV, em trecho que aborda a participação de civis no apoio ao regime militar, lista 62 empresários e empresas que teriam colaborado de alguma forma com o governo da época.
A análise complementar, realizada a partir de pesquisa genealógica, identificou que ao menos 40 desses nomes possuem ascendência vinculada a antigos proprietários de pessoas escravizadas.
A investigação foi realizada no contexto do podcast “Perdas e Danos”, no episódio intitulado “Como Nossos Pais”, que discute a relação entre elites econômicas e o período da ditadura militar no Brasil.
Segundo o pesquisador Ricardo Oliveira, responsável pelo estudo e coordenador de um núcleo de estudos históricos, há uma continuidade estrutural das elites econômicas brasileiras desde o período colonial até o século XX.
De acordo com ele, ao reconstruir árvores genealógicas, é possível identificar vínculos frequentes com o sistema escravocrata entre famílias que posteriormente ocuparam posições de destaque no setor econômico e político do país.
O levantamento utilizou registros históricos como certidões, livros de batismo e bases de dados genealógicos para reconstituir parte das origens familiares dos empresários mencionados no relatório da CNV.
Entre os sobrenomes citados na análise aparecem famílias tradicionais com atuação em setores como bancos, indústria e infraestrutura durante o regime militar.
Pesquisadores destacam que o modelo econômico do período era caracterizado por forte concentração de renda, repressão a movimentos trabalhistas e incentivo estatal a determinados grupos empresariais.
Estudos do IBGE indicam que a desigualdade social no Brasil se intensificou ao longo da década de 1970, período em que o país também registrou crescimento econômico acompanhado de forte concentração de renda.
Já dados da OCDE apontam que o Brasil está entre os países com menor mobilidade social, com ascensão econômica lenta entre gerações.
A reportagem também menciona exemplos de continuidade de poder econômico em determinadas famílias ao longo de diferentes períodos históricos, incluindo atuação no setor financeiro e industrial durante a ditadura.
Pesquisadores envolvidos na análise afirmam ainda que empresas ligadas a esses grupos tiveram participação em estruturas de apoio ao regime, recebendo incentivos fiscais e acesso facilitado a financiamentos públicos.
O estudo conclui que a permanência de determinadas elites ao longo de séculos pode estar relacionada à reprodução de desigualdades estruturais no país, além de destacar a presença dessas famílias em nomes de instituições, ruas e espaços públicos ainda hoje.
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