No Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, moradores enfrentam há anos um problema recorrente: alagamentos que afetam diretamente o dia a dia, especialmente durante períodos de chuva intensa.
A situação é agravada por falhas estruturais históricas, como a deficiência no sistema de drenagem, o despejo irregular de esgoto e o acúmulo de lixo, que acabam obstruindo bueiros e canais.
A realidade é refletida na rotina de Cláudia da Costa Tavares da Silva, de 63 anos. Segundo seu relato, a água pode ultrapassar um metro dentro de casa.
Em dias de temporal, ela precisa agir rapidamente para proteger a mãe idosa, diagnosticada com Alzheimer, além de tentar preservar móveis e objetos da água contaminada que invade o imóvel, muitas vezes retornando pela rede de esgoto.
Com uma população estimada em cerca de 200 mil pessoas distribuídas em 16 comunidades, a Maré convive com a ausência de ligação formal de esgoto em muitas residências.
Como alternativa, parte dos imóveis direciona os dejetos para galerias pluviais, sobrecarregando um sistema que deveria escoar apenas a água da chuva. O resultado são enchentes frequentes, com água suja circulando pelas ruas e invadindo casas.
Apesar das diretrizes estabelecidas pela legislação nacional de saneamento, grande parte dos resíduos ainda é despejada sem tratamento em canais que deságuam na Baía de Guanabara, agravando problemas ambientais históricos e dificultando iniciativas de despoluição.
Diante desse cenário, a concessionária Águas do Rio anunciou investimentos de cerca de R$ 120 milhões para expandir a rede de esgotamento sanitário na região.
O projeto prevê a implantação de aproximadamente 18 quilômetros de novas tubulações e a construção de um duto de grande porte, com 1,5 metro de diâmetro, responsável por levar os resíduos até a Estação de Tratamento Alegria.
As obras devem durar cerca de dois anos e contam com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, além de apoio internacional.
No entanto, especialistas e organizações da sociedade civil, como a Redes da Maré, alertam que as intervenções podem não ser suficientes sem ações integradas do poder público, incluindo melhorias na drenagem urbana e na gestão de resíduos sólidos.
Outro ponto de preocupação envolve a cobrança pelos serviços de água e esgoto, intensificada após a privatização da Companhia Estadual de Águas e Esgoto, em 2021. Com a instalação de hidrômetros, moradores passaram a receber contas a partir de março, mas muitos relatam valores elevados e, em alguns casos, considerados incorretos.
Há registros de cobranças que variam de centenas a mais de mil reais, o que gerou insatisfação e mobilização comunitária.
Lideranças locais denunciaram falhas no sistema da concessionária, que posteriormente reconheceu erros, cancelou parte das faturas e prometeu aplicar tarifa social durante o período inicial das obras.
Especialistas em saneamento alertam que encargos adicionais, como taxas por corte e religação do serviço, além de juros por inadimplência, podem agravar ainda mais a situação financeira de famílias de baixa renda.
Apesar das dificuldades, moradores afirmam que estão dispostos a pagar por um serviço de qualidade, desde que haja melhorias concretas.
A expectativa é que os investimentos contribuam para reduzir os alagamentos e eliminar o esgoto a céu aberto, problema que também favorece a proliferação de doenças e a presença constante de ratos nas comunidades.
Enquanto as obras seguem em andamento, a população continua convivendo com os impactos diários de uma infraestrutura insuficiente, na esperança de mudanças efetivas na qualidade de vida da região.
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