Apesar de avanços nas últimas décadas, o universo das artes no Brasil ainda reflete profundas desigualdades de gênero.
Mulheres enfrentam subvalorização de suas obras, menor participação em espaços de prestígio e, em alguns casos, violência doméstica ou profissional, evidenciando que o campo cultural não está imune às disparidades sociais.
Pesquisas acadêmicas confirmam essa realidade. O artigo “Criando, inovando e excluindo: gênero e poder na economia criativa”, do professor Diego Santos Vieira de Jesus, da Universidade Federal Fluminense, aponta desigualdades salariais significativas na indústria criativa.
Muitas mulheres ocupam cargos de menor prestígio ou se veem obrigadas a manter empregos fora do setor para garantir a subsistência.
Para a jornalista e pesquisadora Fayga Moreira, do Observatório da Diversidade Cultural, o setor artístico reproduz a estrutura patriarcal da sociedade: “Não há como dissociar as carreiras criativas de um contexto em que mulheres são subjugadas e avaliadas segundo critérios definidos majoritariamente por homens, que ocupam a maioria dos espaços de decisão”.
Ela ressalta, no entanto, avanços recentes, como editais exclusivos para mulheres, cotas em processos seletivos e mostras culturais com recorte de gênero, além de uma maior conscientização sobre o impacto das tarefas de cuidado nas trajetórias profissionais femininas.
No campo literário, iniciativas voltadas para a valorização feminina ganham destaque. A escritora Carla Guerson fundou o coletivo Escreviventes, que reúne cerca de 600 autoras de todo o país em um ambiente virtual seguro, ajudando mulheres a publicar seus primeiros livros e aumentar a visibilidade no mercado editorial.
Ainda assim, barreiras persistem, como o menor acesso das mulheres a redes de indicação e ao “capital social”, fundamental para avançar na carreira literária.
O relatório “Gênero e Criatividade: Progresso sobre o Precipício”, da Unesco, reforça a necessidade de políticas públicas mais estruturadas para reduzir desigualdades de gênero nas indústrias criativas e garantir maior reconhecimento da participação feminina em todos os setores culturais.
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