Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Liverpool aponta que versões genéricas da semaglutida — princípio ativo presente nos medicamentos Ozempic e Wegovy — poderiam ser produzidas a um custo muito inferior ao praticado atualmente no mercado. Segundo a pesquisa, a fabricação da versão injetável poderia custar cerca de US$ 3 por mês, o equivalente a aproximadamente R$ 15.
O trabalho foi divulgado como pré-impressão científica e surge em um momento estratégico: as principais patentes da semaglutida devem expirar em 21 de março em dez países, entre eles Brasil, China, Índia, África do Sul, Turquia, México e Canadá. A expiração abre espaço para que laboratórios passem a produzir versões genéricas do medicamento.
Atualmente, os preços da semaglutida são significativamente mais altos em diversos mercados. Nos Estados Unidos, por exemplo, medicamentos baseados na substância podem ultrapassar valores entre US$ 900 e US$ 1.300 por mês. Mesmo em países onde o custo é menor, os preços permanecem muito acima das estimativas de produção.
O estudo foi coassinado pelo farmacologista Andrew Hill, da Universidade de Liverpool. De acordo com ele, a possibilidade de produzir o medicamento a custos reduzidos pode ampliar o acesso global ao tratamento. Hill destacou que preços mais baixos podem facilitar a distribuição em larga escala, especialmente em países com menor renda.
Além da versão injetável, os pesquisadores também analisaram o custo de produção de formulações orais. Nesse caso, comprimidos de semaglutida poderiam ser fabricados por cerca de US$ 16 por mês, ainda muito abaixo dos valores cobrados atualmente.
A pesquisa também identificou cerca de 150 países onde nenhuma patente da semaglutida foi registrada. Somados aos países que terão as patentes expiradas, esses mercados representam regiões que concentram grande parte das pessoas que vivem com diabetes tipo 2 e obesidade no mundo.
Dados citados no estudo indicam que esses 160 países abrigam aproximadamente 69% das pessoas com diabetes tipo 2 e cerca de 84% da população global com obesidade. Em setembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde incluiu a semaglutida na lista de medicamentos essenciais.
Com a proximidade do vencimento de patentes em alguns países, empresas farmacêuticas já se movimentam para entrar no mercado de genéricos. Na Índia, companhias como Dr. Reddy’s e Sun Pharma planejam lançar versões do medicamento com preços significativamente menores, com expectativa de reduções de até 60%.
Na China, ao menos 17 versões da semaglutida estão em fases avançadas de testes clínicos. No Brasil, a farmacêutica Hypera informou que pretende lançar uma versão genérica assim que a patente principal expirar, segundo informações divulgadas pela Reuters.
Especialistas envolvidos na pesquisa afirmam que o cenário lembra o que ocorreu em outras áreas da saúde pública. Medicamentos para doenças como HIV, tuberculose, malária e hepatite passaram por processos semelhantes de queda de preço após a produção de genéricos, ampliando o acesso ao tratamento em vários países.
Apesar do potencial de redução de custos, os autores do estudo destacam que medicamentos mais baratos não resolvem sozinhos problemas complexos ligados à obesidade. Fatores como pobreza, insegurança alimentar e ambientes alimentares desfavoráveis também influenciam o avanço da doença.
Em países como Estados Unidos e parte da Europa, no entanto, a produção de genéricos ainda deve demorar mais alguns anos. As patentes nesses mercados permanecem válidas até cerca de 2032, o que mantém a exclusividade da fabricação nas mãos da empresa detentora da tecnologia.
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