A escalada do conflito envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel tem provocado fortes impactos no mercado internacional de energia. A tensão militar na região do Golfo já afeta o tráfego marítimo no Estreito de Hormuz, uma das rotas mais estratégicas do planeta para o transporte de petróleo e gás natural liquefeito.
A via marítima concentra cerca de 20% do fluxo mundial desses recursos energéticos. Com a navegação comprometida, centenas de petroleiros permanecem retidos na região, enquanto outras embarcações evitam entrar no estreito diante do risco de ataques.
O ministro de Energia do Qatar, Saad al-Kaabi, alertou que a continuidade das hostilidades pode ter efeitos severos sobre a economia global. Em entrevista publicada pelo Financial Times e reproduzida pela Reuters, ele afirmou que exportadores de energia do Golfo podem interromper a produção em poucas semanas caso a situação persista. Segundo o ministro, o cenário extremo poderia levar o preço do petróleo a atingir cerca de US$ 150 por barril.
Nos últimos dias, o mercado já reagiu à instabilidade. O petróleo Brent, referência internacional, fechou a US$ 85,41 por barril na quarta-feira, registrando o quinto dia consecutivo de valorização. No último mês, a cotação acumulou alta superior a 23%. Analistas do Goldman Sachs indicaram que o mercado já considera a possibilidade de semanas de interrupção no fornecimento, estimando que o valor do Brent poderia estar próximo de US$ 65 caso não houvesse o conflito.
A crise também atingiu diretamente instalações energéticas. O Qatar declarou força maior após um drone iraniano atingir a maior usina de gás natural liquefeito do país. O incidente levou à evacuação de cerca de nove mil trabalhadores e à paralisação da produção da planta, responsável por aproximadamente 20% do fornecimento global de GNL.
A situação no transporte marítimo também se agravou rapidamente. Após os ataques realizados por Estados Unidos e Israel contra o Irã no final de fevereiro, autoridades militares iranianas passaram a considerar o Estreito de Hormuz fechado, ameaçando embarcações que tentassem atravessar a região.
Dados do setor de navegação apontam que cerca de 300 navios-tanque ficaram presos no estreito sem rota clara de saída. Ao mesmo tempo, outras embarcações não conseguem acessar os portos do Golfo. Estimativas citadas pela Reuters indicam que pelo menos 200 navios, incluindo petroleiros, transportadores de gás natural liquefeito e cargueiros, estão ancorados próximos a países produtores como Iraque, Arábia Saudita e Qatar.
O aumento do risco também provocou mudanças no mercado de seguros marítimos. Em apenas 48 horas após o início do conflito, os prêmios de seguro contra riscos de guerra subiram de cerca de 0,2% para até 1% do valor das embarcações. Entidades responsáveis por grande parte da cobertura marítima global emitiram avisos de cancelamento para operações em águas do Golfo, dificultando ainda mais o trânsito de navios pela região.
Especialistas apontam que os efeitos da crise podem ultrapassar o setor energético. Pelo menos dez navios já foram atingidos durante os confrontos e houve registros de mortes entre tripulantes. Países que dependem fortemente da rota para importar petróleo também demonstram preocupação com o abastecimento.
A Coreia do Sul informou que sete petroleiros que transportavam até dois milhões de barris cada ficaram retidos próximos ao estreito. A China iniciou negociações diretas com o Irã em busca de garantias para a passagem de suas embarcações, enquanto o governo dos Estados Unidos autorizou temporariamente a compra de petróleo russo por 30 dias como forma de compensar possíveis perdas no fornecimento vindo do Golfo.
Segundo o ministro Saad al-Kaabi, uma interrupção prolongada na região pode desencadear impactos econômicos em cadeia. Além do petróleo e do gás, o Golfo é responsável por grande parte da produção mundial de petroquímicos e matérias-primas utilizadas na fabricação de fertilizantes, o que pode afetar diversas cadeias industriais ao redor do mundo.
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