A morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, aos 86 anos, encerra um dos períodos mais duradouros e decisivos da política do Oriente Médio nas últimas décadas.
De acordo com autoridades iranianas, ele foi morto na manhã de sábado (28), enquanto trabalhava em seu gabinete, durante ofensivas atribuídas aos Estados Unidos e a Israel contra a República Islâmica. O episódio aprofunda a instabilidade regional e marca o fim de mais de 30 anos de liderança no topo do poder iraniano.
Nascido em 17 de julho de 1939, na cidade sagrada de Mashhad, Khamenei cresceu em ambiente religioso e iniciou cedo sua formação em estudos islâmicos. Ainda jovem, frequentou centros de ensino teológico e ampliou seus conhecimentos em Najaf, importante polo do pensamento xiita.
De volta ao Irã, aprofundou-se em jurisprudência islâmica e filosofia na cidade de Qom, consolidando a base intelectual que sustentaria sua trajetória política e religiosa.
O engajamento político começou no início da década de 1960, quando passou a integrar a oposição ao regime do xá Mohammad Reza Pahlavi. Sua atuação contra a monarquia resultou em diversas prisões e o aproximou do movimento que culminaria na Revolução Iraniana.
Nos momentos que antecederam a queda do xá, participou do Conselho da Revolução Islâmica, estrutura que funcionava como núcleo alternativo de poder.
Também esteve entre os fundadores do Partido da República Islâmica e teve papel relevante na organização da Guarda Revolucionária do Irã, criada para proteger o novo regime e conter ameaças internas e externas. Entre 1979 e 1980, comandou a corporação e ocupou o cargo de vice-ministro da Defesa.
Com o início da Guerra Irã-Iraque, em 1980, foi designado representante do aiatolá Ruhollah Khomeini no Conselho Superior de Defesa. O período foi marcado por conflitos internos e atentados.
Em 27 de junho de 1981, sobreviveu a uma explosão em uma mesquita de Teerã, provocada por um artefato escondido em um gravador, que deixou sequelas permanentes e comprometeu os movimentos de seu braço direito.
Ainda em 1981, após a morte do presidente Mohammad Ali Rajai em um atentado, Khamenei concorreu à Presidência com apoio do clero e da Guarda Revolucionária.
Eleito com ampla votação, tornou-se o primeiro religioso a ocupar o cargo na República Islâmica, sendo reconduzido em 1985 para um segundo mandato. Durante sua gestão, a Guarda Revolucionária ampliou sua influência política e militar.
Com o agravamento da saúde de Khomeini no fim da década de 1980, a sucessão passou a dominar o debate interno. Mudanças na Constituição permitiram que especialistas em direito islâmico com experiência administrativa pudessem assumir a liderança suprema. Após a morte de Khomeini, em 1989, Khamenei foi escolhido para o posto máximo do regime.
À frente do país, reforçou os poderes do líder supremo e ampliou sua influência sobre as Forças Armadas, o Parlamento, o Executivo, o Judiciário e os meios de comunicação. Consolidou-se como símbolo de uma linha conservadora e de oposição firme aos Estados Unidos e a Israel, além de apoiar a articulação regional conhecida como “Eixo da Resistência”.
Apesar do discurso rígido, adotou posturas pragmáticas em momentos estratégicos. Endossou o cessar-fogo que encerrou o conflito com o Iraque em 1988 e apoiou o acordo nuclear firmado em 2015, que resultou na suspensão de parte das sanções internacionais.
No plano interno, incentivou políticas de privatização e o desenvolvimento científico, incluindo pesquisas em áreas como células-tronco e clonagem.
Com sua morte, o Irã inicia um período de transição que levanta questionamentos sobre a sucessão e os rumos da República Islâmica. A ausência de uma figura central que moldou profundamente as estruturas de poder do país e sua política externa projeta um cenário de incertezas tanto no âmbito doméstico quanto no equilíbrio estratégico do Oriente Médio.
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