Relatos de recuperação de movimentos e sensibilidade em pacientes com lesão medular vêm chamando atenção no Brasil após o uso experimental da polilaminina, tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A medula espinhal é responsável por conduzir os impulsos do cérebro para o corpo e, quando sofre danos graves — especialmente em lesões classificadas como completas — pode provocar perda total de movimentos e sensibilidade abaixo da área afetada, como nos casos de paraplegia e tetraplegia.
A polilaminina foi criada como uma alternativa para estimular a regeneração neural. Um dos casos que ganhou repercussão nacional foi o do bancário Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após um acidente automobilístico em 2018.
Ele recebeu a aplicação da substância 24 horas após o trauma e passou por longo processo de reabilitação. Em entrevista à Marie Claire, relatou que o primeiro sinal de melhora foi discreto: um movimento no dedão do pé. Posteriormente, compreendeu que a reação poderia estar relacionada à nova tecnologia.
A pesquisa é resultado de mais de 20 anos de estudos liderados pela cientista Tatiana Sampaio na UFRJ. A patente foi concedida no Brasil em 2025 e descreve o uso da laminina polimerizada em meio ácido para tratamento de lesões traumáticas, inflamatórias ou degenerativas.
A laminina é uma proteína associada ao crescimento e à regeneração das células nervosas. Na forma de polímeros ácidos proteicos (pLN), apresenta potencial regenerativo e ação anti-inflamatória, conforme descrito no registro.
A partir do final de 2025, aplicações passaram a ser realizadas mediante decisões judiciais. Reportagem da Folha de S.Paulo apontou que dois pacientes com lesão medular completa apresentaram recuperação parcial de sensibilidade e pequenos movimentos após o procedimento.
Um dos casos foi acompanhado pelo neurocirurgião Bruno Alexandre Côrtes, que afirmou não haver explicação convencional imediata para a melhora observada.
Outros relatos surgiram em seguida. Em janeiro de 2026, a influenciadora Flávia Bueno voltou a movimentar o braço direito poucos dias após a aplicação. No mesmo período, o jovem Luiz Otávio relatou contrações nas pernas e percepção de toque no pé após receber a substância 110 dias depois do trauma.
O neurologista Vicente José Schiavão afirmou ter identificado sinais de melhora em pacientes, mas ressaltou que ainda não é possível confirmar cientificamente a eficácia do produto.
Até o fim de janeiro de 2026, ao menos 17 aplicações compassivas haviam sido realizadas no país. O laboratório Cristália informou que a polilaminina não está disponível para comercialização e permanece em fase experimental.
Um avanço regulatório ocorreu em 5 de janeiro de 2026, quando o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizaram o início da fase 1 do estudo clínico. Essa etapa envolverá cinco pacientes com lesão aguda completa na medula torácica, entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica em até 72 horas após o trauma.
O objetivo principal é avaliar a segurança da aplicação direta da substância na medula espinhal.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou que a autorização representa um possível avanço para o Sistema Único de Saúde. Já o diretor-presidente da Anvisa, Leandro Safatle, destacou o caráter integralmente nacional da pesquisa.
Especialistas alertam, no entanto, que a fase 1 tem como foco a segurança, não a comprovação de eficácia. A validação científica das melhoras relatadas dependerá de estudos clínicos controlados, com maior número de participantes e revisão por pares.
Em entrevista à VEJA SAÚDE, o ortopedista Alexandre Fogaça ressaltou que a substância ainda não pode ser considerada um medicamento estabelecido.
Médicos também lembram que uma pequena parcela de pacientes diagnosticados com lesão medular completa pode apresentar algum grau de recuperação espontânea, o que reforça a necessidade de pesquisas estruturadas para determinar relação direta entre a substância e as melhoras observadas.
Atualmente, a tecnologia segue protegida por patente concedida à UFRJ. Estudos em modelos animais indicaram regeneração axonal, redução de inflamação e melhora funcional.
A confirmação do potencial terapêutico da polilaminina dependerá das próximas fases da pesquisa clínica e do acompanhamento regulatório completo.
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