Um novo exame de fezes desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Genebra, na Suíça, pode representar um avanço significativo na detecção precoce do câncer de intestino. De acordo com estudo publicado na revista científica Cell Host & Microbe, o teste conseguiu identificar 90% dos casos de câncer colorretal analisados, desempenho considerado próximo ao da colonoscopia, que alcança cerca de 94% de precisão.
A principal inovação do método está na análise detalhada da microbiota intestinal — o conjunto de bactérias que habitam o intestino humano. Utilizando algoritmos de inteligência artificial, os cientistas mapearam padrões específicos de micro-organismos associados à presença de tumores e lesões pré-cancerosas.
Segundo os autores, o exame é menos invasivo, pode ser integrado aos testes de fezes já realizados rotineiramente e apresenta potencial para reduzir custos e ampliar o acesso ao rastreamento populacional. A baixa adesão à colonoscopia, exame considerado padrão-ouro para diagnóstico, ainda é um dos principais obstáculos para a detecção precoce da doença.
Atualmente, a colonoscopia é recomendada a partir dos 50 anos, com intervalos que variam entre cinco e dez anos, dependendo do histórico familiar e das condições clínicas do paciente. O procedimento, além de invasivo, exige preparo intestinal e sedação, fatores que afastam parte da população.
Testes em andamento
Embora os resultados sejam promissores, o novo método ainda está em fase experimental. Até o momento, os testes foram realizados em ambiente laboratorial (in vitro). Um ensaio clínico já está sendo conduzido em parceria com os Hospitais Universitários de Genebra para avaliar a eficácia do exame em diferentes estágios do câncer e em pacientes reais.
Os pesquisadores também buscam entender como as alterações na microbiota contribuem para o desenvolvimento do tumor, o que pode abrir caminho para novas estratégias de prevenção e tratamento.
Importância do diagnóstico precoce
O câncer colorretal é um dos mais incidentes no Brasil e no mundo. Segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), cerca de 45 mil novos casos foram projetados no país entre 2023 e 2025. A doença pode se desenvolver de forma silenciosa, principalmente nas fases iniciais.
Entre os principais sinais de alerta estão sangue nas fezes, mudanças persistentes no hábito intestinal (diarreia ou constipação), dor abdominal frequente, anemia, fraqueza, perda de peso sem causa aparente e sensação de evacuação incompleta.
Especialistas destacam que, quando identificado precocemente — inclusive na fase de pólipos, antes da formação do tumor maligno — o câncer de intestino apresenta altas taxas de cura. Por isso, ampliar as estratégias de rastreamento é considerado essencial para reduzir a mortalidade.
Outras tecnologias também vêm sendo estudadas, como testes de DNA em fezes e exames de sangue capazes de detectar fragmentos de material genético tumoral. No entanto, a colonoscopia ainda permanece como exame definitivo para confirmação diagnóstica e remoção de lesões.
Caso os ensaios clínicos confirmem os resultados iniciais, o novo teste baseado na microbiota intestinal poderá se tornar uma ferramenta complementar importante, aumentando a adesão ao rastreamento e contribuindo para o diagnóstico em fases mais tratáveis da doença.
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