A Itália, a Alemanha e a Espanha anunciaram nesta sexta-feira (23) que não irão aderir ao Conselho de Paz criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, alegando impedimentos constitucionais e preocupações com o formato institucional do órgão.
A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, afirmou que o país está aberto ao diálogo internacional, mas que a iniciativa, da forma como foi apresentada, não é compatível com a Constituição italiana. “Estamos prontos para colaborar, mas existem problemas objetivos. Da maneira como essa iniciativa está estruturada atualmente, ela seria inconstitucional para a Itália”, declarou.
Posição semelhante foi adotada pelo chanceler alemão, Friedrich Merz, que disse já ter manifestado disposição pessoal para participar de um conselho de paz, desde que o órgão tivesse caráter de acompanhamento de um processo diplomático concreto, especialmente em relação à Faixa de Gaza.
“Infelizmente, esse processo de paz ainda não começou. E, da forma como o Conselho da Paz está estruturado hoje, não podemos aceitá-lo por razões constitucionais”, afirmou Merz. Segundo ele, a Alemanha permanece aberta a novos formatos de cooperação internacional, desde que respeitem os limites legais do país.
Também nesta sexta-feira, o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, confirmou que a Espanha não participará da iniciativa, reforçando o isolamento político do projeto entre algumas das principais potências europeias.
Trump oficializa Conselho e fala em cooperação com a ONU
Apesar das recusas, Trump celebrou na quinta-feira (22) a assinatura oficial dos estatutos do Conselho de Paz, em cerimônia realizada nos Estados Unidos. O documento foi assinado por representantes de 18 países.
“Assim que o Conselho estiver completamente formado, poderemos fazer praticamente tudo o que quisermos. Faremos isso em colaboração com a ONU”, afirmou o presidente americano.
Segundo o enviado especial de Trump, Steve Witkoff, cerca de 60 países foram convidados a integrar o órgão, e aproximadamente 25 já aceitaram. Entre os países fundadores estão Argentina, Armênia, Indonésia, Azerbaijão, Hungria, Cazaquistão e Paquistão, além de outras nações aliadas a Washington.
Críticas internacionais e alerta sobre concorrência com a ONU
A criação do Conselho de Paz gerou preocupação em setores diplomáticos e na imprensa internacional. Reportagens do Financial Times destacam que o estatuto do órgão defende a formação de uma entidade internacional “mais ágil e eficaz” para construção da paz, o que levanta questionamentos sobre uma possível sobreposição ou concorrência direta com a Organização das Nações Unidas (ONU).
“O Conselho da Paz busca promover estabilidade, restaurar uma governança confiável e garantir paz duradoura em áreas afetadas ou ameaçadas por conflitos”, diz o documento citado pelo jornal. Um funcionário do governo americano afirmou à Axios que a atuação do órgão não se limitará à Faixa de Gaza, ampliando ainda mais o debate sobre seu alcance global.
Lula critica iniciativa e vê tentativa de enfraquecer a ONU
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou publicamente a proposta de Trump. Em declaração recente, Lula afirmou que o presidente americano age como se quisesse “ser dono de uma nova ONU”, sem diálogo com a comunidade internacional.
Para o presidente brasileiro, qualquer iniciativa de paz deve passar pelo multilateralismo e pelo fortalecimento das instituições já existentes, especialmente a ONU, evitando decisões unilaterais ou estruturas paralelas de poder.
As declarações reforçam o clima de ceticismo internacional em torno do Conselho de Paz de Trump, que, apesar do apoio de alguns aliados, enfrenta resistência significativa de países europeus e líderes globais.
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