Um novo estudo científico aponta que o ar das grandes cidades pode estar carregado de uma quantidade de microplásticos muito maior do que se imaginava até agora. Pesquisadores chineses identificaram concentrações extremamente elevadas dessas partículas na atmosfera urbana, indicando que o ar pode funcionar como um dos principais reservatórios da poluição plástica no planeta.
A pesquisa, publicada na revista Science Advances, analisou amostras atmosféricas em duas megacidades da China — Guangzhou e Xi’an — e encontrou entre 140 mil e 180 mil partículas de microplásticos e nanoplásticos por metro cúbico de ar. O número é até um milhão de vezes superior às estimativas obtidas por métodos tradicionais de medição.
O estudo também conseguiu, pela primeira vez, detectar nanoplásticos com dimensões inferiores a 200 nanômetros em ambientes urbanos reais, algo que antes só havia sido observado em condições laboratoriais. Para isso, os cientistas utilizaram microscopia eletrônica de varredura com análise automatizada, capaz de identificar partículas invisíveis a olho nu e ignoradas por técnicas convencionais.
De acordo com os pesquisadores, dois fatores principais explicam a circulação dessas partículas no ar das cidades: a ressuspensão da poeira das ruas, provocada principalmente pelo tráfego de veículos, e as chuvas. A poeira urbana foi apontada como uma das maiores fontes de liberação diária de microplásticos, enquanto a chuva atua tanto no transporte quanto na deposição dessas partículas no solo.
As estimativas indicam que a poeira das vias pode liberar até bilhões de partículas plásticas por metro quadrado todos os dias. Já a deposição úmida, causada pelas precipitações, pode remover milhões de partículas da atmosfera diariamente, redistribuindo esse material no ambiente urbano.
Além do impacto ambiental, o estudo levanta preocupações sobre possíveis efeitos climáticos e riscos à saúde humana. Pesquisas anteriores sugerem que microplásticos podem influenciar a formação de nuvens e até atuar como núcleos de condensação, interferindo nos processos atmosféricos. Do ponto de vista da saúde, a inalação contínua dessas partículas está associada a inflamações respiratórias e possíveis efeitos sistêmicos, embora os impactos de longo prazo ainda não sejam totalmente compreendidos.
Os autores destacam que a atmosfera é um dos compartimentos menos estudados no ciclo global do plástico e defendem que o problema da poluição plástica vai muito além de oceanos e solos. Segundo eles, compreender o comportamento dos microplásticos no ar é fundamental para avaliar os riscos ambientais e desenvolver políticas públicas mais eficazes de controle da poluição urbana.
A pesquisa reforça a ideia de que a crise dos plásticos é mais difusa e invisível do que se imaginava — e que respirar o ar das cidades pode significar uma exposição diária a partículas sintéticas ainda pouco conhecidas pela ciência.
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