Com a chegada do fim de ano, o cenário se repete: confraternizações frequentes, consumo elevado de bebidas alcoólicas, exageros à mesa e, no dia seguinte, a procura por medicamentos vendidos como “antirressaca” ou “hepáticos”.
Produtos populares como Engov, Epocler, Eparema e similares são usados com a promessa de aliviar o mal-estar e até proteger o fígado. No entanto, segundo especialistas, essa lógica não encontra respaldo científico.
De acordo com o clínico geral Natan Chehter, a automedicação cresce consideravelmente neste período, impulsionada tanto pelos excessos quanto pela maior incidência de doenças comuns, como viroses.
Segundo ele, há uma associação equivocada no imaginário popular que atribui qualquer desconforto após comer ou beber ao fígado.
“Má digestão, náusea e mal-estar após exageros alimentares costumam ser colocados na conta do fígado, mas isso, na maioria das vezes, não tem relação direta com o órgão”, explica o médico.
Embora o fígado seja responsável por metabolizar toxinas, incluindo o álcool e medicamentos, ele não costuma provocar sintomas imediatos quando está sobrecarregado.
O desconforto sentido logo após exageros, na maioria das vezes, tem origem gástrica. Bebidas alcoólicas, alimentos gordurosos e alguns remédios irritam a mucosa do estômago, causando azia, náusea, dor abdominal e sensação de empachamento.
O que os medicamentos realmente fazem
Segundo Chehter, os chamados remédios antirressaca não atuam no fígado. Eles agem principalmente no estômago e no intestino, ajudando apenas a aliviar sintomas.
O Engov, por exemplo, reúne substâncias com ação antiácida, analgésica e antiemética, voltadas para amenizar dor de cabeça, enjoo e desconforto gástrico. Já o Eparema é um fitoterápico à base de boldo, indicado para aliviar a sensação de estômago cheio. Nenhum desses produtos, porém, tem ação comprovada sobre o fígado.
A gastroenterologista Debora Poli, do Hospital Sírio-Libanês, é enfática ao afirmar que não existe medicamento com comprovação científica capaz de proteger o fígado ou reduzir os danos causados pelo álcool, seja antes ou depois do consumo.
Segundo ela, esses produtos apenas diminuem alguns sintomas da intoxicação alcoólica, como dor de estômago e mal-estar geral, sem impedir os efeitos nocivos ao organismo.
Falsa sensação de segurança
Para os especialistas, um dos maiores riscos do uso indiscriminado desses medicamentos é a falsa sensação de proteção. Acreditar que o fígado está “blindado” pode levar ao aumento do consumo de álcool.
Outro ponto de atenção é que a automedicação pode mascarar sintomas importantes e atrasar a busca por atendimento médico. Dor abdominal intensa e persistente, vômitos frequentes, tontura acentuada, confusão mental ou dificuldade para se hidratar são sinais de alerta e exigem avaliação profissional.
Álcool e medicamentos: combinação perigosa
A associação entre álcool e medicamentos também exige cautela. Relaxantes musculares podem intensificar a sonolência quando combinados com bebida alcoólica. Já os anti-inflamatórios representam um risco maior.
Segundo Chehter, a combinação de álcool com anti-inflamatórios é especialmente agressiva para o estômago e pode causar gastrite severa e até sangramentos.
Debora Poli acrescenta que diversos medicamentos podem provocar hepatite medicamentosa, com destaque para anti-inflamatórios, antibióticos e hormônios, como testosterona e anabolizantes.
Pessoas com gastrite, refluxo, úlcera gástrica ou gordura no fígado devem ter atenção redobrada. O álcool agride todo o trato digestivo e pode intensificar essas condições.
Há também contraindicações específicas, como no caso de pacientes com dengue, que não devem utilizar medicamentos contendo ácido acetilsalicílico, presente em alguns produtos populares.
Moderação é o melhor caminho
Não existe remédio “detox” capaz de preparar o fígado para receber grandes quantidades de álcool. As medidas mais eficazes continuam sendo simples: moderação no consumo, boa hidratação e descanso adequado.
Em resumo, os medicamentos conhecidos como antirressaca não protegem o fígado nem anulam os efeitos do álcool. Eles apenas aliviam sintomas pontuais. Usá-los como um passe livre para beber mais é um erro — e pode trazer consequências sérias para a saúde.
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