Uma nova análise sobre desigualdade e saúde global foi apresentada pelo Conselho Global sobre Desigualdades, Aids e Pandemias durante a 57ª Reunião da Junta de Coordenação do Unaids, nesta terça-feira (16). O relatório em português, intitulado “Rompendo o ciclo da desigualdade – pandemia – construindo a verdadeira segurança na saúde em uma era global”, servirá como base para a estratégia global de combate à Aids 2026-2031, que será discutida em negociações com países do Grupo dos 20 (G20).
O Brasil, atualmente presidindo o conselho do Unaids, destacou a urgência da questão diante da redução de recursos internacionais para o combate à Aids, como cortes realizados pelo governo dos Estados Unidos, que afetaram programas de tratamento, prevenção e pesquisa da doença.
Segundo Monica Geingos, ex-primeira-dama da Namíbia e membro do conselho, “a desigualdade não é inevitável; é uma escolha política perigosa que coloca em risco a saúde de todos. Os líderes podem quebrar esse ciclo adotando as medidas propostas no relatório”.
O estudo evidencia que desigualdades sociais e econômicas contribuem para o surgimento e propagação de pandemias, criando um ciclo que se retroalimenta: sociedades mais desiguais enfrentam surtos mais longos, letais e disruptivos, enquanto epidemias agravam ainda mais essas desigualdades. A análise baseia-se em dois anos de pesquisa global, considerando crises recentes como Covid-19, Aids, Ebola, Influenza e Mpox.
Entre os principais pontos do estudo, destaca-se que países com altos níveis de desigualdade sofrem maior vulnerabilidade, com risco elevado de mortalidade e dificuldade de acesso a tecnologias inovadoras de saúde, como injeções de longa duração para prevenção do HIV. Além disso, a demora no combate a pandemias amplifica impactos socioeconômicos e sanitários.
O Conselho Global propõe que o ciclo desigualdade-pandemia pode ser interrompido por meio da abordagem Prevenção, Preparação e Resposta (PPR), com quatro recomendações principais:
- Reorganizar o sistema financeiro: renegociar dívidas e repensar instituições e linhas de financiamento emergencial, eliminando políticas de austeridade pró-cíclicas;
- Investir na prevenção: enfrentar determinantes sociais das pandemias por meio de mecanismos de proteção social;
- Fortalecer produção e pesquisa locais: garantir produção regional de medicamentos, pesquisa e compartilhamento de tecnologias como bens públicos essenciais;
- Construir confiança e equidade: implementar redes de governança multissetorial envolvendo sociedade civil e governos, aumentando eficiência e equidade na resposta a pandemias.
O relatório reforça que políticas de proteção social, sistemas de saúde resilientes e acesso equitativo a medicamentos e vacinas são fundamentais para uma segurança sanitária global mais sólida e eficaz.
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