Milhões de moradores de favelas no Brasil enfrentam desafios diários para acessar serviços básicos, como coleta de lixo e atendimento de emergência, devido à infraestrutura viária limitada. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado nesta sexta-feira (5), aponta que 3,1 milhões de pessoas que vivem em comunidades não possuem vias adequadas para ambulâncias ou caminhões, equivalente a 19,1% da população das favelas. Em áreas fora dessas comunidades, apenas 1,4% dos habitantes enfrentam a mesma limitação.
O estudo faz parte do suplemento “Favelas e comunidades urbanas: características urbanísticas do entorno dos domicílios”, baseado no Censo 2022. Segundo Filipe Borsani, chefe do Setor de Pesquisas Territoriais do IBGE, 38% dos moradores das favelas vivem em ruas que dificultam o acesso a serviços públicos essenciais. “Isso significa que certos serviços, como a passagem de caminhão de lixo, não chegam a essas áreas”, afirma.
O Censo de 2022 registrou 16,4 milhões de pessoas em 12.348 favelas brasileiras, distribuídas em 6,56 milhões de domicílios. O levantamento considera diferentes tipos de vias, incluindo becos, escadarias, vielas e palafitas, e cobre 656 municípios com presença de favelas.
Outro indicador da desigualdade urbana é a presença de calçadas. Enquanto 89,3% das pessoas fora das favelas possuem calçadas em suas ruas, nas favelas esse índice cai para 53,9%. A situação varia conforme o tamanho da comunidade: em favelas com até 2,5 mil habitantes, cerca de metade das vias têm calçadas; em comunidades com mais de 10 mil pessoas, o percentual sobe para 61,4%. Na Rocinha, a maior favela do país, apenas 12,1% dos domicílios estão em ruas com calçadas.
A acessibilidade das calçadas também é precária: somente 3,8% dos moradores de favelas têm vias livres de obstáculos, contra 22,3% fora das comunidades. Rampas para cadeirantes são raras, presentes em apenas 2,4% das ruas nas favelas, comparadas a 18,5% em áreas externas.
Em relação à pavimentação, 78,3% das ruas em favelas possuem algum tipo de cobertura, como asfalto, cimento ou paralelepípedo, enquanto fora das comunidades o índice é de 91,8%. O percentual aumenta em favelas maiores, chegando a 86,7% em localidades com mais de 10 mil habitantes. A Bahia se destaca, com 92,1% das vias pavimentadas, acima da média de áreas externas, possivelmente graças à autoconstrução pelos moradores.
A iluminação pública é o serviço mais presente, com 91,1% dos domicílios em favelas situados em ruas com postes de luz, contra 98,5% fora das comunidades. Na Rocinha, o índice cai para 54,3%.
Especialistas do IBGE apontam que os dados refletem uma “exclusão histórica” das favelas e podem embasar reivindicações da população e de organizações locais por melhorias nos serviços públicos. “Que esses dados sirvam como instrumento para exigir melhorias, garantindo acesso adequado a equipamentos e serviços do Estado”, ressalta Leticia Giannella, gerente de Favelas e Comunidades Urbanas do IBGE.
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