Ao praticar sistematicamente uma taxa nominal de juros, muito acima da expectativa futura de inflação (a taxa real hoje beira 8% a.a.), com custo financeiro de 600 bilhões de reais anuais ao orçamento público, essa instituição independente precisa recalibrar sua atuação cíclica na sociedade brasileira. Pois, agindo assim, a autoridade monetária de nosso país trava qualquer possibilidade de recuperação econômica, em 2023.
Neste contexto, enfrentar o sistema de pagamento da dívida pública no Brasil, simplesmente, montado para drenar dinheiro público, obtido às custas do trabalho duro de toda uma população parece urgente. A brutal maquiagem da realidade serve para encobrir sua verdadeira natureza: um sistema de exploração de toda uma população, em benefício de uma minoria politicamente forte, e impedir o país de superar seus entraves históricos.
Um dogma que sustenta todo esse edifício ideológico é o mecanismo denominado de Teto Nominal de Gastos (verdadeira jabuticaba brasileira, pois só existe constitucionalmente em nosso país). Um mecanismo que não corresponde à necessidade real da economia.
E ainda sendo origem, de parte, dos problemas de escassez crescente dos orçamentos públicos das áreas sociais que hoje vivem à míngua, basta ver o tamanho da fila para uma simples operação no SUS e a penúria de nossas universidades públicas federais.
Superar essa estranha amarra representa recuperar a autonomia do poder político sobre o poder econômico que distorce a realidade concreta na sociedade tupiniquim. As políticas públicas ativas para setores sociais e o fortalecimento da recuperação da indústria contrariam, qualquer possibilidade de seguir esta absurda doutrina, centrada na austeridade fiscal defendida pelos “analistas e economistas – banqueiros de plantão.
Por trás dessa lenda está a ideia da Fada da Confiança, segundo a qual, o investimento privado mira a relação entre a dívida pública, em reais, e sua concomitante relação com o Produto Interno Bruto para tomar suas decisões.
Os senhores defensores dessa máxima, se esquecem que um déficit público é a contrapartida de encomendas do governo ao setor privado que se transformam em salários e lucros (fabulosos). Em paralelo, vale lembrar que a dinâmica da arrecadação do poder público é positivamente correlacionada com o crescimento econômico (hoje pouco praticado no Brasil que vive um voo de galinha).
Também ajudam nesse processo, o incremento das exportações líquidas e o endividamento privado tomado pelo empresário para expandir/investir em seus negócios.
A Fada da Confiança, ideologicamente, justifica o recuo da figura do poder público e a privatização de serviços essenciais como saneamento básico, saúde, educação e infraestrutura rodoviária ou energia elétrica. Fatores que encarem o custo de vida das famílias mais pobres e desemprega uma parte qualificada da força de trabalho para permitir lucros extraordinários para os investidores privados nestes setores.
A Fada da Confiança – base para o terrorismo midiático patrocinado pelo deus mercado financeiro – causa, ainda, pobreza extrema para 30 por cento de brasileiros (57% no Nordeste), endividamento e desespero psicológico das famílias, inadimplência elevada, além de vendas no varejo e produção industrial patinando forte nos últimos anos. Portanto, atenção: Barriga vazia gera pavio curto, senhores!
*Ranulfo Vidigal é economista, consultor e doutorando pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele é colunista permanente do Diário da Guanabara. Compartilhe este artigo.












