As defesas dos militares e do agente da Polícia Federal julgados no chamado núcleo 3 da suposta trama golpista voltaram a negar, nesta terça (11) e quarta-feira (12), qualquer participação dos réus em planos para romper a ordem democrática. Durante as sustentações orais, os advogados afirmaram que a Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou apenas “hipóteses” e “interpretações”, sem provas que sustentem as acusações.
A defesa de Bernardo Romão Corrêa Netto argumentou que o então comandante do Exército, general Freire Gomes, jamais foi pressionado pelo militar a aderir a qualquer golpe. O advogado disse que não há evidências materiais que sustentem a denúncia feita pela PGR.
Representando Estevam Theophilo, o defensor afirmou que o Comando de Operações Terrestres (Coter) não administrava os chamados kids pretos — grupos de militares de Operações Especiais citados na investigação. A defesa classificou como falsas as versões atribuídas à delação do tenente-coronel Mauro Cid e alegou insuficiência de provas.
No caso do coronel Fabrício de Bastos, o advogado declarou estar “perplexo” com as alegações finais da PGR, sustentando que o órgão “não produziu nenhuma prova”. Segundo ele, as reuniões dos kids pretos não tratavam de golpe, argumento que, afirmou, foi confirmado pelo próprio delator.
A defesa do tenente-coronel Hélio Ferreira Lima, preso durante o processo, sustentou que o chamado plano Operação Luneta era apenas um documento procedimental do Exército, sem ligação com ações golpistas.
Para Márcio Nunes, a defesa alegou que o coronel apenas cedeu seu prédio para uma reunião e que não participou de conspiração para assassinar autoridades. Segundo o advogado, os autores da carta usada para pressionar o comando do Exército não foram denunciados, enquanto o militar estaria sendo responsabilizado pelo conteúdo.
A defesa de Rafael Martins contestou a integridade da cadeia de custódia das provas digitais e afirmou que não é possível garantir que os arquivos não foram violados. “O réu é inocente”, concluiu o defensor.
Na sessão desta quarta, a defesa do tenente-coronel Rodrigo Bezerra de Azevedo sustentou que ele não participou de nenhuma fase de planejamento de golpe e que estava em Goiânia no dia em que, segundo a acusação, haveria uma tentativa de assassinato do ministro Alexandre de Moraes.
O tenente-coronel Ronald Ferreira de Araújo Júnior também teve sua defesa apresentada. Os advogados afirmaram que ele nunca planejou atos contra o Estado Democrático de Direito e pediram que o caso seja encaminhado à Justiça penal negocial, reforçando que o militar sequer integra as Forças Especiais.
Na sequência, o advogado do tenente-coronel Sérgio Ricardo Cavaliere de Medeiros classificou como “ilógica” e “inviável” a acusação da PGR. A defesa pediu absolvição ou desclassificação das imputações.
Por fim, o advogado de Wladimir Matos Soares, agente da Polícia Federal, destacou que nenhum dos demais réus ou testemunhas conhecia seu cliente. Ele reforçou que não há provas que coloquem o policial no centro da suposta trama golpista e pediu sua absolvição.
Quem são os réus do núcleo 3?
O núcleo 3 reúne militares e um agente da PF investigados por suposta participação na elaboração de estratégias para pressionar o comando do Exército e facilitar a execução de um plano golpista. Segundo a PGR, eles seriam responsáveis desde a produção de documentos estratégicos até o monitoramento de autoridades.
Veja quem são os acusados
- Bernardo Corrêa Netto – Coronel do Exército. Teria pressionado o comandante da força e articulado encontros de militares para apoiar o golpe.
- Estevam Theophilo – General da reserva. Apontado como incentivador para que Bolsonaro assinasse um decreto de ruptura e coordenador de eventual ação militar.
- Fabrício Moreira de Bastos – Coronel. Teria participado de reuniões e contribuído para diretrizes estratégicas, incluindo o documento “Ideias Força”.
- Hélio Ferreira Lima – Tenente-coronel. Autor da “Operação Luneta”, que detalharia fases do golpe, além de monitorar Alexandre de Moraes.
- Márcio Nunes de Resende Júnior – Coronel. Cedeu espaço para reuniões e teria integrado articulações internas, mesmo sabendo da ausência de fraude eleitoral.
- Rafael Martins de Oliveira – Tenente-coronel. Coidealizador da operação “Copa 2022”, que previa sequestrar e matar Moraes; teria gerido recursos financeiros.
- Rodrigo Bezerra de Azevedo – Tenente-coronel. Teria atuado na operação “Copa 2022” e no monitoramento de autoridades, usando técnicas de anonimização.
- Ronald Ferreira de Araújo Júnior – Tenente-coronel. Assinou carta de pressão ao comando do Exército; PGR recuou e pede condenação apenas por incitação.
- Sérgio Ricardo Cavaliere de Medeiros – Tenente-coronel. Apontado como difusor da carta de pressão e incentivador de desinformação.
- Wladimir Matos Soares – Agente da PF. Teria repassado informações estratégicas da posse presidencial e auxiliaria no planejamento de ataques.
O que pede a PGR?
Na terça-feira, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a condenação da maior parte dos réus pelos crimes de:
- organização criminosa armada;
- golpe de Estado;
- tentativa de abolição do Estado Democrático de Direito;
- dano qualificado ao patrimônio da União;
- deterioração do patrimônio público.
O único réu para quem a PGR não pediu condenação por todos os crimes foi Ronald Ferreira de Araújo Júnior. Para Gonet, não há provas de que ele tenha participado diretamente do núcleo golpista ou de ações violentas. A PGR requisita que ele seja condenado apenas por incitação ao crime.
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