Três economistas, cultuados pelo mercado como os pais do Plano Real e integrando uma equipe de transição de governo eleito, escreveram uma carta ao presidente que ainda não foi empossado, tentando impor seus respectivos planos para a economia do país. Isso logo após ouvir o discurso do presidente eleito, no caso Luiz Inácio Lula da Vila, na COP27, no Egito.
Esse ato recente protagonizado pelos economistas Armínio Fraga, Pedro Malan e Edmar Bacha não deve ser analisado fora de um contexto, que inclui a trajetória desse trio que ensaia rebeldia em causa própria no seio de uma transição e suas respectivas atuações no mercado financeiro.
O conteúdo da carta é uma defesa inequívoca e escancarada da banca especuladora e distribuída aos veículos de comunicação compactuados com essa visão de mercado, com direito a leitura protocolar no Jornal Nacional, da TV Globo.
Não resta dúvida de que o intuito é promover a todo custo uma ampla repercussão na tentativa de emparedar o governo ainda antes da posse, evitando a aprovação da PEC da transição.
Revela não apenas a preocupação em preservar os ganhos de especuladores em um país que tem 25% de sua população vivendo na extrema pobreza e na linha de pobreza. Vai além ao tentar abertamente impor ao novo governo adoção de políticas pró-mercado, visando preservar os lucros da turma que frequenta os jantares na Faria Lima. E veja o tamanho da brincadeira:
“O lucro líquido do sistema bancário no Brasil foi de R$ 138 bilhões nos últimos 12 meses, encerrados em junho de 2022. O resultado é 5% superior ao registrado em 2021 e 20% acima do observado nos 12 meses encerrados em junho de 2021”.
Os três economistas, é preciso novamente destacar, são notabilizados pela mídia como formuladores do Plano Real no governo Fernando Henrique Cardoso. Orgulham-se da fama da estabilidade da economia do país nos anos dourados do tucanato, ainda que tenha produzido como efeito colateral a elevação da miséria, desmonte do Estado, adotando o receituário desmistificado ante aos desafios impostos pela pandemia da covid-19, quando a própria City Londrina se volta para uma maior intervenção estatal na economia e na política social.
Contudo, permanecem devotos à política de privatização e ao liberalismo, por razões até profissionais, já que atuam como corretores de investimentos na Bolsa de Valores. São, portanto, homens do mercado financeiro, cuja passagem pelo governo na década de 90 deixou um legado que a maioria dos brasileiros repudia, com exceção da clientela do andar de cima, é claro. Sem contar que o Real como moeda é uma ficção. Seu valor monetário não ultrapassa fronteiras.
A voz rouca das ruas não perdoa. Não surpreende que o PSDB, partido do trio, nos últimos anos encolheu de tamanho em termos de governos regionais, perdeu quatro eleições presidenciais desde a era Fernando Henrique Cardoso, ajudou a produzir o desastre bolsonarista e sua bancada no Congresso definhou, de forma que a legenda ensaia uma fusão com o Cidadania para sobreviver.
Disputa pelo orçamento público
Interessante observar que a carta (leia íntegra, abaixo) ataca a ideia do governo Lula de alterar a política do teto de gastos para manter o programa de renda mínima. Mas, afinal, para que serve o teto de gastos, a não ser impor limites de gastos ao governo e limitar investimentos do Estado para pagar juros da dívida ao mercado? Simples assim.
O trio tucano mostrou a que veio. Na fila do pão saiu em defesa do andar de cima, da banca especuladora, conforme revela trechos da carta:
[…] E também não custa lembrar que a Bolsa é hoje uma fonte relevante de capital para investimento real, canal esse que anda entupido.
São todos sintomas da perda de confiança na moeda nacional, cuja manifestação mais extrema é a escalada da inflação. Quando o governo perde o seu crédito, a economia se arrebenta. Quando isso acontece, quem perde mais? Os pobres!
O setor financeiro recebe juros, sim, mas presta serviços e repassa boa parte dos juros para o resto da economia, que lá deposita seus recursos. […]
Em outro trecho o grupo de economista dá uma “aula” sobre a origem da taxa de juros elevada no país:
[…] Uma economia depende de crédito para funcionar. O maior tomador de crédito na maioria dos países é o governo. No Brasil o governo paga taxas de juros altíssimas. Por quê? Porque não é percebido como um bom devedor. Seja pela via de um eventual calote direto, seja através da inflação, como ocorreu recentemente. […]
Agora vem a verdade inconveniente. O governo Fernando Henrique Cardoso é justamente o período em que o país contabilizou a taxa de juros Selic mais elevada entre sucessores, chegando a 45%. O “deus” mercado, naquele período (graças ao trio) deu pulos de alegria. Confira:
TAXA SELIC EM 4 GOVERNOS
Fernando Henrique Cardoso
1º mandato (1995/1998)
Selic: 38%
2º mandato (1999/2002)
Selic: 45%
Lula
1º mandato (2003/2006)
Selic: 26,5%
2º mandato (2007/2010)
Selic: 13,75%
Dilma Rousseff (2011-2014)
1º mandato (2011/2014)
Selic: 12,5%
2º mandato (2015/2016)
Selic: 14,25%
Michel Temer (2016/2018)
Selic: 14,25%
Jair Bolsonaro (2019/2022)
Selic: 13,75%
A trinca tucana pulou o muro da liturgia. Quem integra uma equipe de transição de um governo tem o dever de primar pela discrição e discutir determinado tema em fórum interno. Ao tornar pública o que deveria ser uma discussão em equipe, promove escancaradamente o assédio sobre um governo que ainda não assumiu suas funções administrativas.
Esse ato não é involuntário. É devidamente pensado. Armínio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan apenas mostraram o que representam. São os mosqueteiros da banca, trabalham para os credores da dívida pública. Contudo, quem passou pelo escrutínio das urnas foi Lula e ao que consta não combinou esses anseios do mercado com os seus eleitores durante a campanha. Por isso, endossar os planos da banca representaria uma chancela ao estelionato eleitoral. Segue abaixo a carta dos três economistas na íntegra:
Caro presidente eleito Lula,
Assistimos a sua fala nesta quinta (17) cedo na COP27, no Egito. Acredite que compartilhamos de suas preocupações sociais e civilizatórias, a sua razão de viver. Não dá para conviver com tanta pobreza, desigualdade e fome aqui no Brasil.
O desafio é tomar providências que não criem problemas maiores do que os que queremos resolver.
A alta do dólar e a queda da Bolsa não são produto da ação de um grupo de especuladores mal-intencionados. A responsabilidade fiscal não é um obstáculo ao nobre anseio de responsabilidade social, para já ou o quanto antes.
O teto de gastos não tira dinheiro da educação, da saúde, da cultura, para pagar juros a banqueiros gananciosos. Não é uma conspiração para desmontar a área social.
Vejamos por quê.
Uma economia depende de crédito para funcionar. O maior tomador de crédito na maioria dos países é o governo. No Brasil o governo paga taxas de juros altíssimas. Por quê? Porque não é percebido como um bom devedor. Seja pela via de um eventual calote direto, seja através da inflação, como ocorreu recentemente.
Imaginamos que seja motivo de grande frustração ver isso tudo. Será que o seu histórico de disciplina fiscal basta? A verdade é que os discursos e nomeações recentes e a PEC (proposta de emenda à Constituição) ora em discussão sugerem que não basta. Desculpe-nos a franqueza. Como o senhor sabe, apoiamos a sua eleição e torcemos por um Brasil melhor e mais justo.
É preciso que se entenda que os juros, o dólar e a Bolsa são o produto das ações de todos na economia, dentro e fora do Brasil, sobretudo do próprio governo. Muita gente séria e trabalhadora, presidente.
É preciso que não nos esqueçamos que dólar alto significa certo arrocho salarial, causado pela inflação que vem a reboque. Sabemos disso há décadas. Os sindicatos sabem.
E também não custa lembrar que a Bolsa é hoje uma fonte relevante de capital para investimento real, canal esse que anda entupido.
São todos sintomas da perda de confiança na moeda nacional, cuja manifestação mais extrema é a escalada da inflação. Quando o governo perde o seu crédito, a economia se arrebenta. Quando isso acontece, quem perde mais? Os pobres!
O setor financeiro recebe juros, sim, mas presta serviços e repassa boa parte dos juros para o resto da economia, que lá deposita seus recursos.
O teto, hoje a caminho de passar de furado a buraco aberto, foi uma tentativa de forçar uma organização de prioridades. Por que isso? Porque não dá para fazer tudo ao mesmo tempo sem pressionar os preços e os juros. O mundo aí fora está repleto de exemplos disso.
Então por que falta dinheiro para áreas de crucial impacto social? Porque, implícita ou explicitamente, não se dá prioridade a elas. Essa é a realidade, que precisa ser encarada com transparência e coragem.
O crédito público no Brasil está evaporando. Hora de tomar providências, sob pena de o povo outra vez tomar na cabeça.
Respeitosamente,
Armínio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan
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