Dadas as circunstâncias extremas que explodem pelos quatro cantos do Brasil profundo e real, na forma dramática das estatísticas de pobreza extrema, desemprego aberto, mortes e violências, parece razoável pensar no que, de fato, deve incidir sobre o novo governo que se desenha para janeiro próximo.
O mundo avança numa guerra estrutural entre grandes 2 blocos econômicos, e isso se reproduz com força inédita no interior de nosso país, cujas riquezas são valiosas e disputadas por grandes corporações.
Estamos também, diante de uma guerra de tendências domésticas duras de superação e uma outra guerra, internacional, mais imperativa e monopólica, em vias de redefinir o papel do Brasil na divisão internacional do trabalho, para servir ao que há de mais avançado e destrutivo em termos de padrão tecnológico: a 4º Revolução Industrial.
Desde a Independência, o desejo de “superar o atraso” foi mantra comum repetido à exaustão por liberais e parte substantiva da esquerda brasileira. Habitamos hoje um território de produção predatória permanente (vide os estragos ambientais recentes em Minas Gerais). O “negócio Brazil” vai muito bem. A elite, nas suas várias frações, sempre esteve associada e servil ao grande capital, hoje predominantemente transnacionalizado e dominando os mais importantes setores produtivos brasileiros. No segmento industrial, aliás, o quadro é de regressão apontada pelo IBGE ao revelar 30 mil unidades fabris fechadas, entre 2016 e 2019, portanto, antes da pandemia!
Nesse quadro de devastação fica quase impossível perceber diferenças entre os interesses da elite local e os interesses do capital global, se é que de fato existem. No Brasil do tempo presente, a elite globalista domina o processo político no Congresso, na mídia dominante e na produção de riqueza, através das finanças, da monocultura industrializada pelo agronegócio e pelo extrativismo praticado pela mineração, estas últimas, de componentes essenciais direcionados para exportação e geração de divisas.
Estamos nos referindo à componentes essenciais, por exemplo, ao complexo industrial militar, como o ferro, à inovadora indústria 4.0, como ouro e lítio, à produção de fertilizantes, como o potássio; e a construção de toda uma infraestrutura necessária a tais atividades como rodovias, ferrovias, hidrovias, hidrelétricas, transposição de rios, que transformam a geografia física, social e cultural do país. Negar isso é ingenuidade.
Esse é o padrão de desenvolvimento associado que se pratica há décadas, em todo o Brasil. Somos o retrato vivo das contradições mais agudas do capital global em expansão, razão pela qual a economia brasileira é cronicamente instável e a política autocrática e bonapartista impera.
A briga recente sobre o “equilíbrio fiscal” é sintomática dessa dicotomia, entre investir no social ou garantir juros para os rentistas.
Neste contexto, tarefas como salvar a floresta amazônica e implantar com sucesso a doutrina denominada ESG – mantra do ambientalismo de mercado dos tempos atuais – vão ser um enorme desafio para o governo “petucano” à frente.
Seus primeiros passos na transição mostram uma variedade de interesses concretos, mas muito divergentes na aliança política que permitiu a vitória apertadíssima observada no final de outubro.
Contudo, não percamos nossas esperanças de reverter essa entropia e poder caminhar.
*Ranulfo Vidigal é economista, consultor e doutorando pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ele é colunista permanente do Diário da Guanabara.












