O Rio de Janeiro registrou nesta terça-feira (28) a operação policial mais letal da história do estado. A chamada Operação Contenção deixou 64 mortos, incluindo quatro policiais, e foi marcada por confrontos intensos nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte da capital.
Segundo o governo estadual, cerca de 2,5 mil agentes das polícias Civil e Militar participaram da ação, que foi planejada por mais de um ano e teve 60 dias de preparação. Foram cumpridos centenas de mandados de prisão e apreensão, com saldo de 81 presos, 72 fuzis retirados de circulação e uma grande quantidade de drogas apreendida.
Durante entrevista no Centro Integrado de Comando e Controle, o governador Cláudio Castro reafirmou que o Estado “atua com força máxima para deixar claro quem exerce o poder”. Ele classificou a operação como uma resposta ao avanço do Comando Vermelho, facção que, segundo levantamento do Geni-UFF e do Instituto Fogo Cruzado, foi a única a expandir seu domínio territorial no Grande Rio entre 2022 e 2023, respondendo hoje por mais de 51% das áreas sob controle criminoso.
Castro alertou que os criminosos “usam tecnologia de guerra, com drones e bombas”, e afirmou que o Estado está preparado para enfrentar “o narcoterrorismo que ameaça os cidadãos de bem e trabalhadores”.
O impacto foi sentido em toda a cidade. A Prefeitura do Rio colocou o município em estágio 2 de atenção, com interdições em vias das zonas norte e oeste. Mais de 100 linhas de ônibus tiveram itinerários alterados, e vídeos gravados por moradores mostrando tiroteios e barricadas dominaram as redes sociais, onde termos como Comando Vermelho e Hell de Janeiro figuraram entre os assuntos mais comentados.
Em retaliação, criminosos sequestraram ônibus, bloquearam vias e ordenaram o fechamento do comércio em várias regiões. A rotina de milhares de cariocas foi interrompida em meio a um cenário de medo e incerteza.
MPF, Defensoria e Alerj pedem explicações
A operação também gerou reações de órgãos de controle. O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União enviaram ofício ao governador pedindo explicações sobre as finalidades e custos da ação, além da comprovação de que não havia meio menos gravoso de atingir os objetivos.
Os órgãos questionam ainda se o governo cumpriu as exigências da ADPF 635, a “ADPF das Favelas”, que impõe protocolos de transparência e redução da letalidade policial.
Entre os pontos que o MPF quer ver comprovados estão o uso de câmeras corporais, a justificativa formal para o uso da força e a divulgação de relatório detalhado da operação.
Na Assembleia Legislativa, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania pediu apuração rigorosa sobre as circunstâncias das mortes. A deputada Dani Monteiro (PSOL), presidente do colegiado, afirmou que “as favelas do Rio foram transformadas em cenário de guerra e barbárie”. Para ela, “nenhuma política de segurança pode se sustentar sobre banho de sangue”, criticando a estratégia “espetacularizada” do governo estadual.
Resultado supera massacre do Jacarezinho
A comissão reforçou o compromisso com a defesa da vida e cobrou responsabilização. Enquanto isso, os moradores dos complexos afetados enfrentam mais um capítulo da longa e violenta disputa entre o poder público e o crime organizado — um conflito que, mais uma vez, impôs o peso da guerra à periferia do Rio.
A letalidade da Operação Contenção supera a da ação policial realizada no Jacarezinho, em 2021, considerada até então a mais violenta do estado, com 28 mortos. A escalada na força empregada e no número de vítimas reacende debates sobre o limite da atuação policial em territórios dominados por facções e milícias, além da necessidade de políticas públicas que priorizem a inteligência, transparência e preservação de vidas.
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