*Por Deneval Siqueira de Azevedo Filho
Em qualquer país democrático, eleger por voto direto do povo é uma ação considerada plenamente correta e justa, legal e moral, enfim é o que se espera em nações onde este tipo de voto é constitucional. O Brasil é um deles. Estamos no meio do caminho para a eleição em segundo turno do nosso presidente da república e de vários governadores de estado. Pois bem, ao mesmo tempo, vemos uma baixaria completa por parte de um candidato à reeleição para a presidência, e seus eleitores nefastos. Movimentação e andanças espúrias.
O mais novo caso de escândalo do Presidente JB é sua ida à procissão marítima de Na. Sra. De Nazaré, em Belém do Pará, em uma embarcação oficial da Marinha Brasileira, que se aportou entre os barcos e navios da Procissão sagrada marítima (também há a terrena) do Círio de Nazaré, evento de grande porte que atrai multidões ao norte do nosso país em Belém (PA).
JB foi e apareceu às escondidas, sorrateiramente, mal vindo que era. Expulso foi e também saiu sorrateiramente. Um ato vil, mal visto, que provocou o protesto de Monsenhores, Bispos e os menos autorizados.
O que foi JB fazer no Círio? Colher votos? Provocar somente? Mas temos um enredo sem dúvida provocante. Faz-nos relembrar alguns bons momentos sacros e profanos da vida religiosa/comum: o Satyricon uma das obras mais originais, realistas, licenciosas e divertidas da literatura latina (FURLAN, 2006).
O enredo de O Satyricon, de Petronios Arbites é composto pela narrativa do protagonista Encolpo que conta suas aventuras jocosas praticadas com os dois amigos Ascilto e Gitão, estes destituídos de princípios morais ou limites.
As narrativas são descritas em três espaços geográficos: Nápolis, Tarento e Croata. O romance é pícaro por excelência, uma vez que seu protagonista comporta características próprias da malandragem, ele vaga entre as classes sociais, exaurindo delas sua sobrevivência: amor, sexo e banquetes a fim de fugir de alguém que tenha o deixado em prejuízo. Nesse sentido, O Satyricon é considerado por muitos autores como o precursor dos romances picarescos que surgiram somente entre os séculos XVII e XVIII, na Espanha (FURLAN, 2006).
Contudo, é possível perceber também que nas aventuras de Encolpo, ele incorpora o arquétipo de herói-cômico, uma vez que se envolve em diversas aventuras desastrosas. Os antagonistas são descritos como transviados, libertinos, ricos, estúpidos, homossexuais, sendo que a classe alta dada à ostentação e o luxo promovem as festas e os banquetes que congregam esses personagens inescrupulosos.
Dentre os banquetes retratados por Encolpo, no capítulo 26-28, pode-se destacar aquele realizado na casa do Trimulquião, um libertino. No momento do festim, ele relata sua ascensão social de escravo a senhor, para isso teria captado a confiança de seu dono, conseguiu realizar comércios incríveis e ganhou herança em um golpe de sorte. Porém, embora rico seus modos ainda permanecem como os do escravo, comportamento que se pode notar, quando ao contar sua saga o faz utilizando uma linguagem vulgar, desinibida, pitoresca (FURLAN, 2006).
Em observância as particularidades de O Satyricon, W. C. Firebaugh, tradutor da obra para a língua inglesa, no prefácio, faz o seguinte comentário:
“Os heróis errantes de Petronius são os originais de quem os autores direta ou indiretamente sentiram-se atraídos por essa inspiração e, que mais tarde resultou na grande massa de ficção picaresca, mas, grande como é, não é a isso que o Satyricon deve a sua poderosa influência sobre a literatura do mundo. É o reconhecimento do autor da importância do ambiente, o papel vital sobre os arredores inanimados, como um meio para trazer caráter e imbuindo seus episódios e as ações de seus personagens com um ar de realidade.”
Ao contrário, o episódio de JB, no Círio de Nazaré, foi desrespeitoso, bandido, estraga-prazer e solitário. JB desafia, impõe presença licenciosa, mas não é original nem legal, pois sempre é bandido! Tal qual Ascilto e Gitão destituído de moral, JB incorpora o arquétipo de herói-tragicômico sem pudor, tão somente, uma vez que se envolve nesta aventura desastrosa e imoral! Pobre Brasil com este JB desastroso.
Sobre o autor: Pós-Doutor e professor Titular de Teoria e História Literária Centro de Ciências Humanas e Naturais Programa de Pós-graduação em Letras – Doutorado e Mestrado em Estudos Literários da UFES.
*Publicado originalmente no Portal VIU!. Leia e compartilhe as notícias do Diário da Guanabara.












