A pequena Laura, de apenas 7 meses, precisou passar por uma cirurgia cardíaca delicada para corrigir uma má-formação associada à Síndrome de Down. O procedimento foi um dos primeiros realizados pelo Projeto Congênitos, uma iniciativa do Ministério da Saúde para reforçar o atendimento de cardiopatia congênita em crianças pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O projeto é executado em três hospitais de referência:
- Hospital Infantil Albert Sabin, em Fortaleza (CE)
- Hospital Francisca Mendes, em Manaus (AM)
- Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (IMIP), em Recife (PE)
Com o suporte remoto do Hospital do Coração (Hcor) de São Paulo, a iniciativa já realizou cirurgias com monitoramento em tempo real, utilizando tecnologia de teleorientação cirúrgica.
Telemedicina no centro da operação
A cirurgia da bebê Laura, em agosto, foi supervisionada por especialistas do Hcor por meio de um sistema que permite:
- Visualização do campo cirúrgico ao vivo, com câmera acoplada ao capacete do cirurgião
- Monitoramento em tempo real de sinais vitais, anestesia, pressão arterial, batimentos e oxigenação
- Troca de informações e sugestões entre os profissionais durante o procedimento
“Eles veem como estamos conduzindo, contribuem com sugestões e discutem melhores práticas”, explica a cardiologista pediatra Geni Medeiros, do Hospital Albert Sabin.
O sistema foi desenvolvido pelo Instituto do Coração (Incor) da USP, com foco em melhorar o cuidado e expandir a capacidade técnica das equipes locais.
Demanda crescente e ampliação de serviços
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 30 mil crianças nascem por ano no Brasil com algum tipo de cardiopatia congênita. Dessas, 80% precisam de cirurgia, sendo que metade requer o procedimento ainda no primeiro ano de vida.
No entanto, a infraestrutura nacional ainda é limitada. Muitos hospitais — como o próprio Albert Sabin — precisam encaminhar casos mais complexos para outras unidades de referência, o que sobrecarrega o sistema e atrasa os atendimentos, aumentando o risco de complicações.
“O Hospital de Messejana, que é referência no Ceará, já não dá conta da demanda”, afirma Geni Medeiros.
Fortalecimento técnico e descentralização do atendimento
O objetivo do projeto é ampliar a capacidade local, tanto em volume quanto em complexidade de cirurgias realizadas.
“Eles já operam casos de baixa e média complexidade, e a ideia é amadurecer para tratar também os de alta complexidade”, explica Ieda Jatene, líder médica da Cardiologia Pediátrica do Hcor.
Ela destaca que, quando a cirurgia é feita no tempo certo, as crianças têm chance de levar uma vida saudável:
“Mas, se há demora, elas enfrentam infecções, internações frequentes e complicações pós-operatórias. Isso é ruim para o paciente e para o SUS”.
Impacto regional e futuro do projeto
O Projeto Congênitos integra o Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS) e vai até 2026. O foco é fortalecer os serviços nas regiões Norte e Nordeste, as mais carentes em cirurgias cardíacas pediátricas.
Ao todo, serão 60 cirurgias com teleorientação durante o período. Além disso, o projeto realiza:
- Discussões semanais de casos entre equipes locais e o Hcor
- Capacitações técnicas para equipes multidisciplinares
- Monitoramento de resultados e evolução dos protocolos clínicos
Histórias como a da Laura mostram o impacto do projeto
A mãe da bebê, Maria Izonete Pinheiro, conta que o diagnóstico da trissomia do cromossomo 21 (Síndrome de Down) veio apenas após o parto, e que foi surpreendida com a necessidade de cirurgia.
“Foi muito assustador saber da cirurgia, mas conseguimos fazer com rapidez. Agradeço muito à equipe do hospital”, disse, emocionada.
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