O piano silenciou. As melodias que um dia ecoaram pelas mãos de Miguel Proença agora dão lugar à pausa definitiva do luto. O pianista gaúcho, um dos maiores nomes da música erudita brasileira, morreu na última sexta-feira (22), aos 86 anos, no Hospital São Vicente, na Gávea, no Rio de Janeiro. A causa da morte foi falência múltipla de órgãos. Ele estava internado desde junho.
Nascido em Quaraí, na fronteira com o Uruguai, Proença teve trajetória marcada por excelência artística, dedicação à cultura e projeção internacional. Foi professor, gestor cultural, apresentador de rádio e, acima de tudo, um apaixonado pelo piano. Ao longo da carreira, levou a música brasileira de concerto para palcos da Europa, Ásia e América do Norte.
“Ele foi um pianista maravilhoso, com uma visão da música brasileira quando não se tinha ainda esse reconhecimento”, afirmou Thiago Regotto, Gerente Executivo de Rádios da Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Segundo ele, Proença conviveu com grandes compositores brasileiros — como Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e Radamés Gnattali — e foi responsável por gravar e difundir suas obras mundo afora.
Legado nas rádios e na cultura pública
Miguel Proença também marcou época na Rádio MEC, onde atuou entre as décadas de 1970 e 1990. Apresentou programas como Música e Músicos do Brasil — no ar desde 1958 — e A Arte do Piano, nos quais entrevistava artistas e contava histórias de grandes pianistas.
Sua influência extrapolou o palco. Foi presidente da Fundação Nacional de Artes (Funarte), secretário municipal de Cultura do Rio de Janeiro e diretor da Sala Cecília Meireles. “Ele foi pioneiro nessa transição de artista para gestor cultural, algo raro para a época”, pontuou Regotto.
Das teclas ao coração
Proença iniciou os estudos de piano aos 15 anos, após se apaixonar pelo som do instrumento que ouviu vindo de um casarão em sua cidade natal. Cursou também odontologia, mas foi o amor pela música — e pela pianista Marly Lisboa — que o levou a seguir carreira artística. Casou-se com Marly na Alemanha, onde estudou com bolsa oferecida pelo governo local.
Homenagens e legado
A Rádio MEC, onde Proença construiu parte de sua história, vai homenagear o pianista a partir desta segunda-feira (25), com a exibição de gravações e reprises de seus programas. “Miguel Proença deixa um legado profundo para a cultura brasileira, para a música e para a história da rádio pública”, ressaltou Regotto.
A ausência de Miguel é uma pausa infinita na partitura da música clássica brasileira. Mas sua obra e contribuição seguem ressoando — como um eco persistente nas teclas do tempo.
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