A crise financeira na Usina Sapucaia, uma das remanescentes do ciclo açucareiro que moldou Campos dos Goytacazes e o Norte Fluminense, deixou de ser um ruído setorial: trabalhadores relatam atrasos salariais recorrentes, pagamento de horas extras em aberto e falta de previsão para quem recebe acima de R$ 2,5 mil.
Há também denúncias de que o FGTS não vem sendo recolhido, com efeitos em cascata — de dificuldades de alguns trabalhadores para cumprir pagamento de pensão alimentícia a bloqueios judiciais.
“Os pagamentos não ocorrem na data correta (…) e não há previsão para quitar os vencimentos de funcionários que recebem acima de R$ 2,5 mil”, diz uma das mensagens enviadas a perfis locais no Instagram.
“Sem FGTS e com horas extras atrasadas, tem gente indo trabalhar sem alimentação e sem conseguir comprar fraldas para os filhos”, afirma outra.
Familiares e trabalhadores passaram a usar as redes sociais para denunciar a situação, criticando o que chamam de “silêncio” das páginas e veículos locais, além da inércia do Ministério Público do Trabalho (MPT).
Relatos também mencionam mortes decorrentes de acidentes de trabalho na indústria — um ponto extremamente sensível que, se confirmado, exigiria apuração imediata, comunicação de acidente (CAT) e medidas corretivas de segurança.
A usina é administrada pela Coagro (Cooperativa Agroindustrial do Estado do Rio de Janeiro), presidida pelo vice-prefeito de Campos, Frederico Paes (MDB). Até o momento das denúncias relatadas, o MPT e a Delegacia Regional do Trabalho não haviam se manifestado publicamente, segundo os autores das queixas.
Inadimplência com fornecedores e pressão do MST
A crise atinge outrora setores. O lado dos fornecedores, produtores afirmam desvalorização do preço por tonelada de cana e atraso de pagamentos. Alguns dizem ainda ter créditos pendentes da safra de 2024.
O fator terra exerce pressão. Em 24 de julho, cerca de 500 famílias do MST ocuparam a Fazenda São Cristóvão, próxima a Travessão — área do grupo Othon (ligado às usinas Cupim e Barcelos) arrendada à Sapucaia.
A propriedade está em negociação para destinação à Reforma Agrária, segundo o MST. A ação de julho integrou a Jornada Nacional Camponesa, pressionando por políticas e assentamentos. O MST relatou cerco policial e ameaça de despejo sem ordem judicial, o que classificou como arbitrário.
As denúncias acima foram apresentadas por familiares, trabalhadores e fornecedores em redes sociais e comunicados do movimento social. Em situações assim, é essencial que autoridades laborais e a administração da usina se pronunciem e apresentem documentos (folhas de pagamento, comprovantes de FGTS, laudos de segurança, contratos com fornecedores) que confirmem ou refutem os pontos descritos.

Crise na Sapucaia deflagra efeito dominó
Atrasos salariais e ausência de FGTS empurram famílias para vulnerabilidade alimentar e endividamento — com impactos diretos em crianças e dependentes.
A segurança do trabalho é outro tópico que preocupa. Relatos de acidentes fatais, se confirmados, expõem passivos humanos e legais, e pedem auditorias independentes, revisão de procedimentos e transparência.
Já para a economia regional, os fornecedores descapitalizados e com créditos em aberto reduzem o plantio e manutenção de lavouras, o que realimenta a crise industrial na safra seguinte.
Há também uma observação inescapável sobre governança e conflito de interesses. Quando dirigentes políticos ocupam posições em negócios que dependem de decisões públicas (fiscais, trabalhistas, fundiárias), transparência e accountability são cruciais para evitar assimetrias e suspeitas.

“Era de ouro” e exaustão: a cronologia curta do açúcar no Norte Fluminense
- Séculos XVIII–XIX: Campos dos Goytacazes se consolida como polo açucareiro no Rio de Janeiro, com grandes propriedades e mão de obra escravizada; o açúcar estrutura a sociedade local e as elites fundiárias.
- 1933: criação do Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), que regula preços, crédito e produção — base do período de forte proteção estatal e expansão industrial.
- 1975: lançamento do Proálcool, em resposta ao choque do petróleo: o etanol vira prioridade nacional, e o setor ganha fôlego para modernização e aumento de moagem.
- 1990: extinção do IAA e liberalização; fim dos subsídios expõe usinas fluminenses a uma competição mais dura com o Centro-Sul (especialmente São Paulo), onde produtividade e escala são maiores. O RJ inicia um ciclo de fechamento ou suspensão de usinas.
- Anos 2000: novo ciclo do etanol traz investimentos e cooperativismo de fornecedores, mas de forma desigual no RJ; ativos envelhecidos e menor competitividade logística pesam contra a recuperação plena no Norte Fluminense.
- 2010–2017: endividamento, clima adverso e volatilidade de preços levam a judicializações e paralisações de unidades no estado; na região de Campos, alguns parques industriais operam com baixa utilização e manutenção postergada.
- 2019: RenovaBio cria incentivos por descarbonização (CBIOs). Mesmo com a melhora macro do setor no país, gargalos estruturais do RJ (escala, produtividade agrícola, custo de capital) limitam ganhos.
- 2020–2023: pandemia e choques de preços elevam a volatilidade; o Brasil tem supersafras de açúcar/etanol em alguns ciclos, mas a recuperação fluminense permanece tímida.
- 2024 em diante: persistem desafios de financiamento de safra, renovação de canaviais, mecanização e cumprimento de obrigações trabalhistas; disputas fundiárias e pressões por Reforma Agrária reordenam a geografia do plantio.
Economia local sente os efeitos
A Sapucaia é um espelho. Quando a indústria que ajudou a moldar o Norte Fluminense atrasa salários, acumula passivos e perde transparência, é toda a cidade de Campos que sente — no bolso, no prato e no horizonte.
A imagem que se tem do açúcar no Norte Fluminense no passado sempre foi de abundância: canaviais a perder de vista, usinas fumegantes e uma cidade erguida sobre esse ciclo. Hoje, essa paisagem permanece, mas com outra tonalidade: incerteza.
A situação de uma usina remanescente desse ciclo, como é o caso da Sapucaia, tornou-se um espelho ampliado de um problema regional. Os relatos mencionando atrasos de salários, falta de previsibilidade de pagamentos e deterioração de condições de trabalho — são sintomas clássicos de uma cadeia exaurida por dívida, volatilidade de preços e baixa produtividade agrícola.
Sem transparência sobre indicadores de produção, passivos trabalhistas e cronograma de pagamentos, o que se instala é o ruído. Para a cidade, o risco é econômico e humano: a cana foi — e ainda é — um vetor de renda, emprego e identidade. Quando a usina falha, o comércio murcha, o caixa do produtor estrangula e a confiança evapora.
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