A exposição de crianças em redes sociais voltou ao centro do debate público após uma série de denúncias feitas pelo influenciador digital Felca Bress. Ele revelou a existência de perfis com milhões de seguidores que divulgam vídeos de menores em situações que ultrapassam os limites do aceitável — com roupas curtas, danças sensuais e até discursos sobre sexualidade.
As denúncias evidenciam um problema crescente: a exploração da imagem de crianças e adolescentes para gerar engajamento, audiência e lucro em plataformas digitais.
O impacto foi tão grande que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou o envio ao Congresso Nacional de um projeto de lei para regulamentar as redes sociais, com foco na proteção de usuários mais vulneráveis, especialmente crianças.
Redes incentivam a exposição extrema
Especialistas alertam que a lógica das redes sociais favorece a viralização de conteúdos que chocam ou atraem atenção — mesmo que isso envolva a exposição de crianças de forma inapropriada. O psicólogo Rodrigo Nejm, do Instituto Alana, defende que as plataformas devem ser responsabilizadas por esse cenário.
“As redes não podem tratar a infância como uma mercadoria. A exploração da imagem de crianças, sexualizadas ou adultizadas, não pode ser aceita como modelo de negócio”, afirma.
Segundo ele, a busca por visibilidade e dinheiro está empurrando famílias a expor os filhos em conteúdos cada vez mais extremos — e as plataformas lucram com isso. “Quanto mais impactante for o conteúdo, mais visualizações, mais curtidas, mais dinheiro. É um ciclo que precisa ser interrompido”, explica.
Câmara vai elaborar nova legislação
Como resposta à repercussão, a Câmara dos Deputados criou um grupo de trabalho para discutir um novo projeto de lei voltado à proteção de crianças nas redes. Um dos textos que poderá servir de base é o PL 2.628/2022, de autoria do senador Alessandro Vieira, que prevê punições severas para plataformas que permitirem a circulação de conteúdo erotizado com menores. A proposta prevê multa de até 10% do faturamento da empresa.
O projeto também conta com apoio da Sociedade Brasileira de Pediatria, que solicitou urgência na sua aprovação.
Infância sob risco
Uma pesquisa do Cetic.br revela que 93% dos jovens entre 9 e 17 anos no Brasil acessam a internet. Entre eles, 83% têm perfis próprios em redes sociais. Essa presença online crescente, muitas vezes sem supervisão, tem exposto menores a conteúdos impróprios e interações perigosas.
O fenômeno conhecido como “adultização infantil” preocupa psicólogos. Ele ocorre quando crianças assumem comportamentos, discursos ou estéticas típicas de adultos — muitas vezes, impulsionadas por tendências das redes.
Débora Salles, coordenadora do Netlab da UFRJ, destaca que a pressão por engajamento digital tem distorcido o que deveria ser a infância. “Não se trata apenas de sexualização. Há crianças dando dicas de investimento, trabalhando como influenciadoras, e isso tudo interfere no seu desenvolvimento saudável.”
Para o psicólogo Tiago Giacometti, esse tipo de exposição pode gerar impactos emocionais graves. “Crianças estão sendo julgadas, avaliadas, expostas como adultos — mas não têm estrutura emocional para lidar com isso. As consequências podem durar toda a vida.”
Conteúdo pode alimentar redes criminosas
Além dos impactos psicológicos, a exposição nas redes também pode colocar as crianças na mira de criminosos. Especialistas alertam que imagens aparentemente inofensivas — como uma criança brincando ou usando trajes de banho — podem ser apropriadas por redes de pedofilia.
“Famílias, muitas vezes sem intenção, acabam alimentando essas redes. As plataformas não são ambientes seguros, e é fundamental que os pais estejam atentos a tudo que é publicado e consumido pelas crianças”, ressalta Débora.
Ela reforça que o uso das redes deve ser supervisionado. “Criança não deve ficar sozinha na internet. Assim como não deixamos uma criança sozinha na rua, também não podemos deixá-la sem proteção nas redes sociais.”
*Compartilhe esta notícia do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











