No coração da 5ª Feira Nacional da Reforma Agrária, realizada entre os dias 08 e 11 de maio no Parque da Água Branca, em São Paulo, uma exposição inusitada chamou a atenção de milhares de visitantes: tratores, colheitadeiras e plantadeiras de origem chinesa, apresentados pela primeira vez ao público brasileiro pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
Mais do que uma inovação técnica, os equipamentos representam uma guinada estratégica na agricultura familiar brasileira. Fruto de uma parceria entre o MST e empresas chinesas, os maquinários foram projetados para atender às necessidades específicas dos assentamentos: pequenas propriedades, cultivos diversos e trabalho coletivo.
Testadas inicialmente em projetos do Nordeste, as máquinas demonstraram eficiência, adaptabilidade e baixo custo. Segundo Luiz Zarref, coordenador para a América Latina da Associação Internacional para Cooperação Popular (Baobab), a China foi escolhida justamente por sua experiência histórica em agricultura camponesa mecanizada:
“A China tem cerca de 240 milhões de estabelecimentos agrícolas em 120 milhões de hectares. Esse modelo fundiário camponês permitiu o desenvolvimento de máquinas compactas, eficientes e diversas — exatamente o que precisamos no Brasil.”
Enquanto o agronegócio nacional ainda é dominado por grandes corporações europeias e norte-americanas, com foco em monoculturas e alta potência, as máquinas chinesas oferecem uma alternativa voltada à produção diversificada e agroecológica. Há tratores com esteiras para áreas alagadas, plantadeiras específicas para arroz recém-germinado e sistemas de irrigação adaptados à fruticultura.
“A diversidade de equipamentos responde diretamente à diversidade do campo. São máquinas pensadas para a lógica da agricultura familiar e que ajudam a romper com o ‘crime estrutural’ da exclusão tecnológica no meio rural”, afirma Zarref.
A mostra fez parte de uma estratégia maior do MST de transformar a Feira Nacional da Reforma Agrária em um espaço político, cultural e econômico. Além da exposição de equipamentos, o evento contou com rodas de conversa, comercialização de alimentos orgânicos, atividades culturais e o lançamento do documentário “Máquinas Chinesas, Terras Camponesas: tecnologia para alimentar o Brasil”.
Para o MST, o acesso a tecnologias adequadas é essencial para consolidar a soberania alimentar e avançar na Reforma Agrária Popular. A parceria com a China, nesse sentido, não é apenas comercial — é simbólica. Representa a possibilidade concreta de uma mecanização popular que fortaleça a autonomia do campesinato brasileiro.
A promessa, segundo o Movimento, é clara: a próxima revolução no campo brasileiro também passa pelas engrenagens dos tratores camponeses.
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