O declínio na exploração de petróleo nos poços maduros desenha um futuro sombrio para a maior parte das cidades petrorrentistas localizadas na Bacia de Campos.
Alguns municípios com renda dependente do petróleo e participação especial na produção de petróleo já enfrentam quedas variáveis de repasses dessas fontes de arrecadação, já que a maior parte da produção nacional migrou para o pré-sal, responsável por 75% da produção do país.
Até a década de 90, a Bacia de Campos chegou a representar 80% da produção nacional. Agora a região mira um novo ciclo, a energia gerada a partir do gás natural por meio de termelétricas.
Macaé, a locomotiva econômica regional por ser base das operadoras da Bacia de Campos, assumiu o protagonismo neste novo ciclo econômico, promovendo uma transição da produção de petróleo para a produção de energia a partir do gás natural extraído tanto na Bacia de Campos quanto do pré-sal.
Todo o gás extraído em alto mar passa pelo Terminal de Cabiúnas, o maior da América Latina e localizado na cidade. Em seu plano estratégico, a Petrobras anunciou o projeto de construir mais uma planta em Macaé, ainda maior do que Cabiúnas. O projeto vai atender a demanda de 14 usinas termelétricas que produzirão energia a partir do gás.
Duas já estão instaladas: a UTE Mário Lago e a EDF Norte Fluminense. Mais duas já estão licenciadas, as Usinas Termelétricas Vale Azul I e II, com capacidade de gerar 660 MW por hora, através do gás processado pelo Terminal Cabiúnas.
“Macaé se beneficia de sua capacidade instalada e material humano, ou seja, muita mão de obra qualificada. As cidades como Rio das Ostras, que também estão muito próximas e com uma Zona Especial de Negócios, também se beneficiam desse dinamismo”, destaca o economista e articulista do Diário da Guanabara, Ranulfo Vidigal.
Esses projetos farão parte do CLIMA – Complexo Logístico e Industrial de Macaé, que já registra a construção da Usina Marlim Azul. O investimento nesses empreendimentos está na ordem de R$ 3 bilhões, com impacto direto na economia local e na geração de empregos, mas o valor estimado para todas as térmicas é de um investimento de R$ 20 bilhões em até uma década.
Esses investimentos favorecem também as cidades no entorno, como Rio das Ostras, Quissamã, Carapebus, Conceição de Macabu e Casimiro de Abreu, consideradas cidades satélites.
Um dos grandes incentivos ao setor, é o decreto 46.944/2020 do governo do Estado, que dá tratamento tributário especial para usinas de energia termelétrica. De acordo com o decreto, empresas ou consórcios sediados no estado que implementarem projetos de geração de energia no estado receberão tratamento tributário diferenciado.
Capacidade de geração de energia vai superar Hidrelétrica de Itaipu
Quando as 14 termelétricas estiverem produzindo com toda a capacidade, elas estarão gerando mais energia do que a Usina Hidrelétrica de Itaipu. A título de comparação: Itaipu tem 14.000 MW de potência instalada, as 14 usinas termelétricas de Macaé representarão 15.000 MW de potência instalada. Uma nova região industrial está nascendo no entorno desses projetos.
EXCLUSIVO: Obras da Termelétrica Marlin Azul começaram na área do CLIMA- Macaé. Projeto já tem licença do INEA e alvará da prefeitura. U$ 700 milhões de investimentos da @Shell Mitsubishi e Pátria Investimentos. pic.twitter.com/jqxccVqEqB
— MacaeS/A (@a_macaes) February 21, 2019
A cidade também aposta firme na diversificação da economia e o turismo é uma das opções. A rede hoteleira local oferece todas as condições. Neste quesito, atualmente, só perde para a cidade do Rio de Janeiro, capital do Estado.
Os hotéis que antigamente tinham 100% de ocupação para o turismo de negócios, agora já tem 30% dedicada à ocupação de turistas. O segmento também absorve demandas da Região dos Lagos.
Energia representa atração de indústrias, incluindo segmentos da nova economia.
Petrobras perde protagonismo como maior investidora
O setor de serviços de Rio das Ostras, que fica a uma distância de 30km, já se prepara para o novo boom. Na cidade já está em construção o Rio das Ostras Plaza Shopping, o maior centro comercial da Baixada Litorânea. A Renner, grande varejista, é a primeira grande âncora a anunciar a aquisição de uma loja no empreendimento. Outras já estão em conversação.
Nos tempos em que a Bacia de Campos respondia pela maior parte da produção de petróleo no país, a Petrobras foi a grande indutora de investimentos regional.
A estatal chegou a investir sozinha o que todas as petrolíferas que assumiram a produção na Bacia de Campos devem investir em uma década. Em 2013, por exemplo, a estatal investiu US$ 9 bilhões. Até o ano passado, o desembolso previsto para cinco anos era de US$ 2,6 bilhões anuais.
Mas, se os planos do município forem bem sucedidos, a geração de energia vai ocupar uma parte significativa da indústria do petróleo na economia local e fazer de Macaé uma cidade a todo gás. petrolíferas de menor porte assumiram parte dos investimentos da estatal. Além “Entendemos esses projetos de geração térmica como uma redenção para uma cidade que sempre se doou à indústria de petróleo”, destacou o secretário Municipal de Desenvolvimento, Rodrigo Vianna, em recente entrevista.
“Temos de lembrar que, na privatização da Eletrobras, foi aprovada a construção de 8 GW de usinas termelétricas espalhadas por várias regiões. Mas a decisão vem do governo e vai depender do crescimento da economia”, salientou o professor do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) Nivalde de Castro, em entrevista ao jornal Estado de São Paulo no ano passado.
A termelétrica Marlim Azul, que já está em construção, é um projeto de R$ 2,5 bilhões operado pelo fundo Pátria Investimentos, em sociedade com a Shell e a Mitsubishi Hitachi Power Systems Americas (MHPS).
Investimentos também incluem energia solar e eólica
Macaé não é a única cidade mapeada para investimentos na produção de energia a partir do gás natural. No Porto do Açu, em São João da Barra, já foi inaugurada uma termelétrica e uma segunda unidade já está em construção.
Mas a energia também virá de outras fontes. Estão previstos também investimentos em geração de energia solar e eólica. A Equinor estuda desenvolver uma usina de geração solar fotovoltaica na região do Açu.
Também está no radar da Equinor um projeto de eólica offshore no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, com 320 geradores a cerca de 20 quilômetros da costa. Aracatu I e II vão utilizar geradores de 12 MW. Aracatu I ficará na costa do estado do Rio, com a energia levada por cabos para uma subestação em Campos dos Goytacazes, prevista para ser concluída em 2024.
PROJETOS PARA O NORTE FLUMINENSE
14 TERMELÉTRICAS A GÁS EM MACAÉ
2 TERMELÉTRICAS A GÁS NO PORTO DO AÇU
1 TERMINAL DE GNL
1 USINA DE ENERGIA SOLAR
1 USINA EÓLICA
3 FAZENDAS EÓLICAS OFFSHORE
*Reportagem especial publicada na edição impressa.











