Às 5h da manhã, enquanto o sol ainda se preparava para iluminar o horizonte carioca, fieis católicos se reuniram no bairro de Quintino, Zona Norte do Rio, para a tradicional queima de fogos em homenagem a São Jorge.
O ritual marca o início das comemorações pelo dia do santo guerreiro, feriado regional no estado desde 2008. A data, celebrada em 23 de abril, mistura devoção religiosa, sincretismo e cultura, refletindo a pluralidade do Rio de Janeiro.
Reconhecido como padroeiro de cavaleiros, soldados e escoteiros, São Jorge é venerado como símbolo de resistência contra o mal. O Vaticano destaca em seu site que o santo representa a vitória do bem sobre o mal, lembrando que “a batalha não se vence sozinho: Deus age por meio dele”.
Sua imagem, frequentemente retratada em batalha contra um dragão, remete à lenda medieval em que Jorge salva uma princesa ao matar a criatura mitológica – narrativa popularizada durante as Cruzadas, associando o dragão aos “inimigos da fé”.
Apesar da popularidade, sua existência histórica permanece envolta em mistério. Nascido na Capadócia (atual Turquia) por volta de 280 d.C., Jorge teria sido martirizado ao desafiar a perseguição de cristãos pelo imperador romano Diocleciano.
A escassez de registros concretos levou a Igreja Católica, em 1969, a reclassificar sua celebração para “memória facultativa”, mantendo-o, porém, como figura de devoção global.

Sincretismo: entre a fé e a resistência
No Brasil, São Jorge ganhou novos contornos ao ser sincretizado com Ogum, orixá das religiões de matriz africana associado ao ferro, às guerras e à tecnologia. Para Luiz Antônio Simas, historiador e autor de O Cavaleiro da Lua: Cordel para São Jorge, o santo integra os “santos do cotidiano”, invocados para “resolver perrengues imediatos”.
Porém, a socióloga e mãe de santo Flávia Pinto ressalta que equiparar São Jorge a Ogum é um equívoco histórico.
“Ogum existe há mais de 10 mil anos na Nigéria, enquanto São Jorge surgiu há dois milênios. Jorge é um filho espiritual de Ogum, não o próprio orixá”, explica. Ela enfatiza que o sincretismo não deve ser romantizado: foi uma estratégia de sobrevivência cultural diante da violência colonial, que impôs o cristianismo a negros e indígenas.
Culto transcultural
A figura de São Jorge transcende fronteiras religiosas. Na Inglaterra medieval, tornou-se patrono da “Ordem dos Cavaleiros de São Jorge”. No Islã, estudiosos associam-no a Al-Khidr, figura misteriosa do Alcorão.
Já no Rio, sua devoção mistura procissões católicas, oferendas em encruzilhadas e rodas de samba, como na música São Jorge, de Caetano Veloso.
Neste 23 de abril, enquanto fogos iluminam Quintino e fiéis acendem velas vermelhas e brancas, o Rio reafirma São Jorge como símbolo de resistência – não apenas contra dragões mitológicos, mas contra as adversidades de um país marcado por desigualdades.
Como define Simas: “Ele é o vencedor de demandas, aquele que luta nas batalhas materiais e espirituais”. Uma fé que, como o ferro forjado por Ogum, resiste ao tempo.
*Da Agência Fonte Exclusiva e ABr. Compartilhe esta notícia do Diário da Guanabara, o melhor site de notícias do Rio de Janeiro.











